Roda de samba

Revista do Samba, no Biergarten do Garimpo, no Embu das Artes, SP.
Vítor da Trindade, Letícia Coura, Beto Bianchi – 20 / 05 / 2017

Conto e ouço histórias; logo, existo

No mês passado ouvi um podcast novo chamado “S-Town” (em inglês). Foram sete episódios de 1 hora de duração cada, todos lançados de uma só vez, como uma série da Netflix. Dá pra ouvir tudo numa sentada só ou ir degustando aos poucos. Só que é um programa de não-ficção pra rádio. De altíssimo nível, a propósito, tanto editorial quanto de produção e narração. Entrevistas são entrecortadas por músicas, com uma harmônica edição de som e, sobretudo, há ritmo. A história guarda um mistério e, portanto, a ordem em que as informações são apresentadas e por quanto tempo sustenta-se o suspense são elementos fundamentais. Caso contrário, o ouvinte perderia o interesse, faria outra coisa, não ouviria o resto. Como um leitor que se entendia com um thriller mal-escrito.

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Pé surrealista na kitinete

Forçada ao repouso por um mísero mindinho do pé esquerdo quebrado e recém-instalada em um novo apartamento, desenhei (mal) o surrealismo do pé flutuante com kitinete ao fundo…
* Caneta em gel sobre caderninho amarelado.

A introversão e a solidão alegre

Dizem que as pessoas podem ser divididas em dois grupos primários de personalidade: gatos e cachorros. As pessoas felinas seriam as mais introvertidas; e as caninas, as extrovertidas. Umas gostam de ficar sozinhas, preferem o silêncio, precisam de sossego. Outras buscam mais estímulos, querem gente por perto, se alimentam do coletivo. Tal como as pessoas sociáveis, os cães são considerados animais mais amáveis, companheiros, brincalhões e também atrapalhados e carentes. Os gatos, por sua vez e seguindo o mesmo raciocínio pros reclusos, são vistos como elegantes, autossuficientes, ágeis, esnobes, desconfiados e até ardilosos. Pensar as pessoas como felinas ou caninas pode trazer insights interessantes, mas, mais que isso, revela nossa preferência – enquanto cultura – pelos extrovertidos. E, de tabela, nosso juízo sobre os introvertidos.

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O zen e o mindinho quebrado

Três semanas atrás quebrei o dedo do pé. Uma bobeira. Uma topada. E nada grave. Uma fratura e pronto. E essa pequena pedra no caminho – quebrar o dedo mindinho, menor impossível – se mostrou um inconveniente surpreendente. O desequilíbrio provocado pela impossibilidade de usar uma parte do pé pra se apoiar é real, concreto, e também mental. Subitamente, é preciso rearranjar pequenas e grandes ações cotidianas, aquelas sobre as quais nem se reflete – como mudar de posição na cama ou calçar os chinelos. Agora, todas as ações motoras levam em conta esse toquinho no canto do pé. É preciso que outros façam por mim coisas até então dadas como banais, como apertar o pedal da embreagem do carro. De maneira compulsória, o cotidiano ficou mais zen e mindful, com as atenções plenamente voltadas pra cada ação. É bom e ruim. Nem bom nem ruim.

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Devaneios sobre a cultura do olhar

Semana passada meu padrasto americano estava em São Paulo e fomos tomar uma cerveja no bar da esquina aqui de casa. Ele comentou que gosta da maneira como as pessoas se olham em São Paulo. Que é muito diferente da forma como as pessoas se olham no interior de Minas, onde ele mora com minha mãe. Achei que faz total sentido. Sou uma entusiasta da prática de people watching, gosto de observar essas sutilezas, mas até então sempre as definia em termos culturais bem amplos. Brasileiros olham de um jeito, franceses de outro, americanos de outro, por aí vai. A observação dele me levou a ponderar também sobre as diferenças regionais. E no ato, no meio daquele copo de cerveja, soube que seria esse o mote pra minha crônica dessa semana.

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Bicicleta lifestyle

Esses dias fiquei pensando que o tuk-tuk é, pra uma cidade indiana, o que a carroça é (ou foi) no ambiente rural. O que a charrete foi no século 19. O que talvez as bigas tenham sido na Roma antiga. Um meio de transporte que te permite deslocar-se enquanto interage e observa o entorno de outro ângulo, em outra velocidade, mas ainda assim, em proximidade dos demais. O tuk-tuk, mesmo motorizado como é hoje, me parece ser um sobrevivente desse contato no trânsito que ainda era pessoal. E o que me veio à cabeça e ao coração todas as vezes que entrei num tuk-tuk na minha última viagem à Índia, há poucos meses, foi a bicicleta. Eles têm uma vibe parecida. Você tá ali, no corpo-a-corpo. Sobre rodas, mas ao ar livre. O trânsito apertado. O calor do escapamento dos carros. As pessoas a pé. Tudo muito perto. Olho no olho.

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