Pelo direito a não ter carreira alguma


“Carreiras são uma invenção do século 20, e eu não quero uma”. Quando li essa frase, conclui no ato: nem eu! Um dos primeiros pânicos que tive, ainda bem nova, ao me projetar adulta era justamente esse: como é que eu vou conseguir trabalhar a vida toda fazendo a mesma coisa? Tinha calafrios noturnos com a ideia. Isso muito antes de ler a frase acima no livro de Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem. Muito antes de saber que não era preciso fazer todo dia a mesma coisa pra ser um adulto. Se soubesse então que carreiras são uma invenção recente, teria me concentrado em sofrer apenas com os outros dois desse trio de terrores do reino assombrado da “maturidade”: 1) acordar cedo todo dia; 2) e ter que virar esposa e mãe. Me sentia completamente inapta pra todos eles.

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Você tem medo de quê?

Outro dia um amigo me disse o seguinte: “Meu instinto é classe média”. Ou seja, quando o bicho pega, os sistemas de defesa do seu corpo e mente o levam pro lugar que ele conhece como seguro – e ele não parecia satisfeito com essa constatação. Ele queria dizer que, por exemplo, tem medo das ruas da cidade à noite, que tem o instinto de atravessar pra calçada mais iluminada, que logo quer pegar um táxi e, também, outro exemplo, que quando a vida fica muito incerta suas defesas logo acionam o alerta que pisca em letreiros luminosos dizendo “arrume um emprego!”, tenha carteira de trabalho assinada, compre a casa própria, tenha 13o, declare o Imposto de Renda, garanta sua aposentadoria e plano de saúde privado. E, no entanto, ao mesmo tempo, ele sabe que nada disso importa tanto assim – e não digo isso por causa da reforma trabalhista do apocalipse. É porque o buraco é mais embaixo mesmo.

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Literatura é coisa de mulher

Em português, existem as palavras embaixadora e embaixatriz. São distintas. Embaixadora é o feminino de embaixador, ou seja, uma mulher que representa seu país em outro país, uma diplomata do escalão mais alto. Embaixatriz é o nome dado à mulher do embaixador. A primeira-dama, digamos assim. Aliás, bem assim mesmo. Tanto embaixatriz quanto primeira-dama são termos sem equivalente referência masculina. Que eu saiba, não existe um nome pro marido da embaixadora nem pro da presidenta. Chama-se essa pessoa por seu nome próprio. Afinal, não se trata de um título de nobreza transferível via casamento.

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Tony Soprano e a tradição crioula dos expatriados

O comediante Hasan Minhaj, correspondente do The Daily Show, é filho de imigrantes indianos muçulmanos. Ele é a primeira geração americana do seu clã. E numa entrevista referiu-se a si próprio como “terceiro culturista”. Sua mãe e seu pai são a primeira cultura, a matriz – a Índia. A cultura americana é a segunda, a que recebe. E ele é a terceira cultura, a crioula. A soma de uma e outra, ou a mistura delas. Sua multiplicação, talvez. Enfim, gostei desse termo, “terceiro culturista”. Faz tempo que pensava sobre isso. Como brasileira e, portanto, mestiça. Como descendente de terceira geração de italianos. Como integrante, em primeira geração, de uma família brasileiro-americana. Como expatriada por um tempo na Europa. Como fã de quatro da série “Os Sopranos”.

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A Paris de Santos Dumont

Em 2006, fiz uma reportagem em Paris para a extinta revista mineira Mundo Pangea, na época editada pela Isabel Pequeno. A pauta era motivada pelo centenário do voo do 14-bis, em 1906. E a oportunidade preciosa: passear pela cidade tendo como meta refazer alguns dos passos do aviador mineiro – aqueles ainda disponíveis. Foi minha primeira reportagem longa. E também minha primeira vez em Paris.

Hoje, arrumando caixotes pós-mudança, encontrei a revista… taí.

O tempo das coisas

Nosso século, que tanto fala de economia,
é um esbanjador:
esbanja o mais precioso, o espírito.
Friedrich Nietzsche

Quando você vai preparar um chá, tem o tempo de fervura da água, o momento da infusão, a espera pelo resfriamento e só então a ingestão da bebida. Não dá pra mudar a ordem dos fatores nem o tempo que cada um deles demanda. A água só vai ferver a 100oC, a erva precisa de alguns minutinhos na água quente pra ser infundida e se você não esperar esfriar vai queimar a língua. As coisas têm seu tempo. E embora os tempos hoje sejam de afobação, o chá ainda toma o tempo que toma pra ficar pronto. E tudo indica que vai continuar sendo assim. Saber disso, no corpo e na alma, é o que eu chamo de sabedoria.

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