O doce balanço brasileiro

Esse texto foi publicado na revista “Viagem e Turismo”, de dezembro de 2017.

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Banhista na Paulista

porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa
(Angélica Freitas)

Numa tarde especialmente chuvosa de novembro, parei o carro num sinal da Av. Paulista com a Alameda Min. Rocha Azevedo. Ali, naquela esquina, uma mulher se banhava na enxurrada. Pelada, com cabelos em dreadlocks coloridos, idade indefinida (nem jovem nem velha), estava sentada num ponto em que a água empoçou bem no encontro do asfalto com a subida do meio-fio e formou uma piscininha rasa. A chuva torrencial despencava e a mulher se lavava embaixo dos braços, fazia concha com as mãos pra lavar os cabelos, levando também água à boca pra beber. Não havia pedestres e os motoristas nos carros desaceleravam pra observá-la. Era uma cena impressionante. Seus gestos não carregavam nem um tom exibicionista nem maluco. Não se tratava de uma performance, creio eu, nem de uma doida. Havia uma naturalidade que conferia a seu banho um ar corriqueiro. “Hora da chuva, hora do banho”. E só.

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Antonio Candido

No fim de outubro, fui à Pinacoteca, no centro de São Paulo, visitar a exposição “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos”, em comemoração ao aniversário de nascimento do pintor e fiquei inspiradíssima. Recomendo desde já uma visita e um mergulho na obra do carioca que foi uma espécie de cronista de seu tempo. Suas charges e ilustrações pra revistas foram, para mim, a maior e mais deliciosa surpresa, pois, sem se dar conta (ou se dando conta), Di foi registrando a passagem do século 20, seus tipos e suas modas, seus políticos e suas vedetes, suas fofocas e tabus. Um deleite. Saí de lá animada e pensando no Antonio Candido.

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Minimalismo contra o capitalismo

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Por quase 3 anos, morei em casal em uma quitinete de 24m2, no último andar de um predinho em Paris. Um cômodo, uma cozinha separada por uma parede, um banheiro. Na cozinha, uma placa elétrica de duas bocas, um pequeno forno também elétrico, um mini-frigobar, pia simples, pouco espaço pra utensílios e também pra comida. As compras eram feitas gradualmente e repostas à medida que eram comidas; não dava pra estocar nada. Pra cozinhar, era preciso ir lavando, secando e liberando a única superfície sobre a pia que servia tanto pro escorredor quanto pra tábua. O quarto era simbolicamente dividido por uma estante; de um lado a cama, do outro a mesa de trabalho, tipo escritório. Havia uma poltrona, uma luminária, um violão, livros, um espelho, uma cortina separando a cozinha. O guarda-roupa embutido tinha três portas baixas; uma delas pra mim. E só. Todas as minhas roupas estavam no espaço de arara que me cabia ali naquela porta, algumas dobradas embaixo, um único par de botas pra todas as ocasiões. No térreo, uma bicicleta. O aluguel era barato, o bairro delicioso, a vida descomplicada.

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É sempre hoje

Robert Pirsig abre o posfácio da edição que eu tenho do livro “Zen e a arte de manutenção de motocicletas” contando que, na Grécia Antiga, a noção de tempo era a inversa da que conhecemos hoje no Ocidente. Ou seja, caminha-se para o futuro de costas, pois o futuro é desconhecido. E o passado está à nossa frente, aquilo que podemos ver. Não sei você, mas eu acho essa percepção do tempo bem mais fidedigna ao que experimentamos empiricamente na vida do que a ideia de que o futuro está adiante e o passado, atrás. Do passado sabemos – ao menos uma parte –, embora a memória seja uma faculdade criativa sempre em construção, alterando sem cessar nossa percepção do que passou. E o futuro, quem sabe dele?

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