O zen e o mindinho quebrado

Três semanas atrás quebrei o dedo do pé. Uma bobeira. Uma topada. E nada grave. Uma fratura e pronto. E essa pequena pedra no caminho – quebrar o dedo mindinho, menor impossível – se mostrou um inconveniente surpreendente. O desequilíbrio provocado pela impossibilidade de usar uma parte do pé pra se apoiar é real, concreto, e também mental. Subitamente, é preciso rearranjar pequenas e grandes ações cotidianas, aquelas sobre as quais nem se reflete – como mudar de posição na cama ou calçar os chinelos. Agora, todas as ações motoras levam em conta esse toquinho no canto do pé. É preciso que outros façam por mim coisas até então dadas como banais, como apertar o pedal da embreagem do carro. De maneira compulsória, o cotidiano ficou mais zen e mindful, com as atenções plenamente voltadas pra cada ação. É bom e ruim. Nem bom nem ruim.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

Devaneios sobre a cultura do olhar

Semana passada meu padrasto americano estava em São Paulo e fomos tomar uma cerveja no bar da esquina aqui de casa. Ele comentou que gosta da maneira como as pessoas se olham em São Paulo. Que é muito diferente da forma como as pessoas se olham no interior de Minas, onde ele mora com minha mãe. Achei que faz total sentido. Sou uma entusiasta da prática de people watching, gosto de observar essas sutilezas, mas até então sempre as definia em termos culturais bem amplos. Brasileiros olham de um jeito, franceses de outro, americanos de outro, por aí vai. A observação dele me levou a ponderar também sobre as diferenças regionais. E no ato, no meio daquele copo de cerveja, soube que seria esse o mote pra minha crônica dessa semana.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

Bicicleta lifestyle

Esses dias fiquei pensando que o tuk-tuk é, pra uma cidade indiana, o que a carroça é (ou foi) no ambiente rural. O que a charrete foi no século 19. O que talvez as bigas tenham sido na Roma antiga. Um meio de transporte que te permite deslocar-se enquanto interage e observa o entorno de outro ângulo, em outra velocidade, mas ainda assim, em proximidade dos demais. O tuk-tuk, mesmo motorizado como é hoje, me parece ser um sobrevivente desse contato no trânsito que ainda era pessoal. E o que me veio à cabeça e ao coração todas as vezes que entrei num tuk-tuk na minha última viagem à Índia, há poucos meses, foi a bicicleta. Eles têm uma vibe parecida. Você tá ali, no corpo-a-corpo. Sobre rodas, mas ao ar livre. O trânsito apertado. O calor do escapamento dos carros. As pessoas a pé. Tudo muito perto. Olho no olho.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

Uma mulher, Dot Fisher-Smith

Semana passada fui à ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na Av. Paulista e fotografei algumas mulheres dali, uma ideia que venho trabalhando (falei sobre isso nesse texto). Uma delas, que não quis ter sua foto tirada, me perguntou porque eu só fotografava mulheres. Respondi que os homens já ocupam muito espaço, em todas as esferas. Ela esboçou um princípio de sorriso, triste. “É. Quem toca a vida são as mulheres mesmo”. Concordei com a cabeça e imediatamente lembrei-me do que me disseram certa vez: “você só pode ter sido criada por um matriarcado. Tem uma força aí que é do feminino”.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

Trabalho não é emprego

170221-lazer

Outro dia fui ouvir uma fala do escritor, crítico e professor da Unicamp, Eduardo Sterzi, na livraria/biblioteca/espaço cultural Tapera Taperá, na Galeria Metrópole, no centro de São Paulo, sobre antropofagia e o modus vivendi ameríndio a partir de fotografias do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. E me saltou aos ouvidos quando ele disse que na cultura indígena o descanso e a atividade se misturam. Um índio molda seu arco ou cuida do fogo deitado na rede. Ele descansa o corpo, embora esteja propriamente ocupado com uma tarefa. Me identifiquei na hora. Tenho como posição favorita pra escrever aquela em que deito na cama, coloco uma pilha travesseiros sob a cabeça e descanso o computador em cima da barriga. Delícia. E sou muito produtiva nessa posição aparentemente anti-anatômica pra escrita. A escrita que é uma atividade, um trabalho.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

O que eu (não) sei sobre Ulisses

fullsizerender

Nunca li Ulisses. Confesso que nem tenho vontade. Tampouco li Ilíada, nem Odisseia. Não sei muito sobre esses personagens que partilham o nome Ulisses. Mas batizada, eu também, com um nome que carrega histórias e personagens – Maria, há tantas –, entendi logo o fardo que carregava aquele garoto de 18 anos que conheci na faculdade. Talvez os nomes tenham sido o primeiro passo em nossa dança de aproximação e amizade. Será que se tivéssemos outros nomes seríamos amigos há 15 anos? Não saberemos, mas fica aberto o espaço à divagação, à fantasia, caldo e alimento do escritor – nosso ofício, meu e dele – e amálgama da maioria das nossas conversas ao longo dos anos. E, eu viria a saber mais pra frente, os nomes, na vida e na obra do Ulisses, jamais prescindem de valor e subtexto.

Em nossos primeiros meses de convivência e alto potencial de aproximação feliz, Ulisses me fez uma proposta e um convite que eu aceitei: confiou, a mim, um segredo. Eu não sabia na época, mas confiar a alguém algo seu, algo íntimo, é a maneira mais certa de ganhar sua lealdade. Guardei-o comigo, com mais zelo do que se fosse meu. Ulisses, que é muito mais inteligente do que eu, um mestre das paixões humanas, já sabia que eu o guardaria. E viramos amigos. Irmãos. Confidentes. Parceiros. Almas gêmeas. E, anos mais tarde, também colegas de o(fí)cio. Minha trajetória de escritora é intrinsicamente ligada e indissociável de minha amizade com Ulisses. Ele encadernou, organizou, prefaciou, revisou e editou meus primeiros textos, todos eles. Montou-os em edições caseiras, me mostrou que eu já escrevia, que o ofício já estava lá. E quando meu livro nasceu, foi ele quem fez o parto.

Não há orgulho em ser assim. Escritor. Há conformação. Durante os anos, me lembro de não poucos momentos em que decidimos, ambos, parar de escrever. Hoje rio sozinha lembrando disso. Não éramos acometidos ao mesmo tempo por esse mal estar, ainda bem. Quando um ficava estremecido, o outro estava ali pra dar uma escorada. Sempre tivemos uma facilidade muito evidente pra entrar em conversas de cunho estritamente estético. E a velocidade com que passamos a embarcar nessa tangente de assuntos foi se aprimorando com o tempo. Já há 8 anos não residimos na mesma cidade; metade desse tempo, sequer no mesmo país. Fomos afiando nossa navalha da intimidade argumentativa nas janelas de oportunidade que apareciam. Revelações íntimas e detalhadas foram compartilhadas em trajetos de 20 minutos, da rodoviária à casa, algumas dezenas de vezes. Conversas ao portão. Sentados no meio fio. Deitados à tarde, olhando pro teto, ignorando as chamadas (de celular) do mundo lá fora, externo a nossa bolha e, portanto, fora de nossa prioridade (e sobretudo de nosso interesse).

Somos muito diferentes, porém estranhamente complementares. Não brigamos, embora discordemos com frequência. Respeitamos o sono e as vontades do outro. Passamos horas em silêncio confortável. Dançamos. Cantamos. Comemos. Lemos juntos. E rimos muito, sempre. Geramos ciúmes, com certeza, mas prefiro acreditar que incitamos ainda mais admiração. Afinal, amizades como a nossa são pequenos tesouros, e não sobrevivem por vontade divina. Perduram e resistem por uma mistura de cuidado, carinho e respeito de ambas as partes. E também por um certo elemento, imprescindível, de ausência de esforço. A palavra em inglês é effortless. O que sempre nos ajudou, indiretamente, a não cair no drama. Juntos fomos tentando, e na maior parte do tempo conseguindo, transitar da tragédia à comédia sem escala pelo drama. No fim, a diferença entre as duas é apenas temporal. Passado certo tempo, toda tragédia vira comédia. E Ulisses domina, com maestria, esse timing. Ninguém o ensinou isso. Veio com ele. Suspeito que herdado da mãe.

Feito esse preâmbulo, volto-me a Homo Sapiens Erectus. Esse é o décimo livro do Ulisses. Eu o li, e todos os anteriores também, no manuscrito, na versão caseira, rascunhada, aquela que a gente nunca vê dos nossos autores favoritos. Esquecemos de nos lembrar que todo mundo tem rascunhos. E nossos rascunhos, acredite, não são a obra. São o zigoto de uma ideia. Portanto, quando alguém te confia um manuscrito de um livro, aceite-o com pompas. Se não for pra honrá-lo, recuse-o de uma vez. Porque ali está um pedacinho da alma do escritor que lhe é entregue em mãos, encadernada. Tenha em mente que ele pode, sim, valer mais que um segredo. Ser mais íntimo. E essa aposta, esse convite do Ulisses, eu também aceitei. Com gratidão e humildade. Miigwech.

A primeira vez que tive contato com os contos que compõem esse volume já faz 5 anos. Eu morava na França, e o manuscrito que até hoje eu guardo, com meus rabiscos e impressões, me foi enviado por correio. Eu e Ulisses fomos capazes de manter nossa comunicação fraterna e editorial através dessas distâncias transatlânticas, e Homo Sapiens Erectus foi um desses projetos epistolares. Suspeito até que a distância tornou nosso diálogo literário ainda mais rico, como se através da arte, da literatura, nosso amor e vontade de partilhar fossem transmitidos com mais precisão. Direto ao coração. Me dedicava a essas atividades com o afinco de uma apaixonada. De corpo e alma presentes, sentia que o espaço-tempo coincidia. Isso nos manteve ligados com um arco muito mais teso que conversas ao telefone, que raríssimas vezes tivemos. Há muitos anos já havia desistido de conversar ao telefone com o Ulisses. Aprendi cedo que ali não dava jogo. Ele é lacônico e esquisito de fone ao ouvido.

O que vocês têm em mãos, portanto, caro leitor, esse compêndio de histórias e fantasias, é um exercício da vontade, da paciência e da teimosia do autor. São contos que ele vinha escrevendo há mais de 15 anos, desde a adolescência, e cuja publicação vem sendo gestada há mais de cinco. Fantasias vividas, idealizadas, escondidas, teatralizadas, sublimadas, mas nunca ignoradas. Há o belo, o fetiche, o perverso, o infantil. Fantasias que dão tesão, outras que dão medo, e até culpa. E a catarse da escrita, ele aprendeu cedo, cura. Recria. Funciona tanto que há autores que deixem de viver fora do livro, tamanha a satisfação advinda da imersão.

Já contei em uma crônica minha que o método de criação desse meu amigo me intriga. Essa sua forma de processar as ideias, encontrando-as e organizando-as em sua cabeça antes de escrever uma linha sequer. Ele tem um caderninho. Mas as palavras ali não abundam. Às vezes, toda a gênese de um romance – que ele sabe do início ao fim, diálogos inclusos – está contida em uma única palavra, em letras estilizadas e garrafais, com rabiscos circundantes. Tipo um desenho que se faz na última folha do caderno de escola, onde a gente deixa o inconsciente (e o tédio) fluir enquanto fracassamos em prestar atenção na aula. E, pensando bem, é por aí mesmo que a criatividade do Ulisses opera. Como nossa amizade. No acaso distraído. Na atenção flutuante. Na vigília agitada e no sono vespertino.

Um professor meu, no mestrado em literatura, me explicou em aula a diferença entre o autor, o narrador e a voz narrativa. Às vezes, a voz narrativa é a voz do narrador. Outras não. Às vezes, o leitor sabe apenas o que o narrador sabe, outras sabe mais que ele. E de vez em quando, mas com muito menor frequência, o narrador, a voz narrativa e o autor são o mesmo. E mesmo nesses casos, nunca são exatamente o mesmo. Porque até contando a “verdade”, mentimos. E o livro confessional também é uma ficção. O Ulisses gosta da mentira. Regozija-se dela. Refestela-se. Pratica-a em muitos lugares, em muitos tempos. O que não tem nada a ver com falta de honestidade. Aliás, muito pelo contrário – e me aproveito de uma ideia de Dostoyevsky, em Crime e Castigo: é de mentira em mentira que se chega à tal verdade. E Ulisses, que é analista, escritor, professor e contador de histórias, sabe muito bem disso. Acho até que é por isso que ganha a vida contando e ouvindo histórias.

Ofereço aqui, portanto, uma nota de advertência de uma velha marinheira desses mares de Homero: duvide, sempre, do Ulisses, mas não de seus narradores. Aqui, nesse volume, você vai encontrar muitos deles. Cada hora um. Nenhum deles é o autor. Nenhum. Portanto, guarde suas ressalvas para o homem que gerou tantos outros homens e tem horror a ser levado a sério. Se encontrá-lo na rua, no bar, no cinema, desconfie, provoque, cutuque-o. E guarde sua confiança para a duração que tiver sua travessia por essas páginas. O narrador é coisa séria. E aqui, autor, narrador e voz narrativas só se cruzam nas nossas interpretações, nas concatenações do leitor.

Ulisses, caprichoso, me confessou muito cedo ter uma fantasia das mais picantes: sonhava em, um dia, não criar mais histórias em sua cabeça. Aspirava viver uma vida onde as experiências e as fantasias não se transformam em personagens e eventos. Esse, e não tudo que você vai ler nesse livro, foi seu maior fetiche. Não sei se perdura, porque as fantasias também se gastam e desgastam. Afinal, percebemos, com o passar dos anos, que maior covardia não é a vida de escritor – esse ser solitário e esquisito que vive em seu cubículo imaginário, acompanhado de palavras, monstros, sonhos e vaidades. A maior covardia é não escrever. E, em seguida, não publicar. A gente se vê descobre no que escreve. A gente publica pra não viver rodeado de fantasmas e de rascunhos inacabados.

Dito tudo isso, você deve estar se perguntando o que eu não sei sobre o Ulisses. E eu arrisco dizer: mais coisas do que eu suponho. Ulisses preserva mistérios e cultiva segredos. Mas a partir de agora, caro leitor, esse livro que você tem em mãos não é mais um deles. Honre-o.

Prefácio escrito para o livro Homo Sapiens Erectusde Ulisses Belleigoli.

Fotografando mulheres

Letícia Coura

Fotografar mulheres é diferente de fotografar homens?” Meu amigo indiano me perguntou isso ao ver essa série de fotos que fiz em Varanasi, na Índia, em dezembro passado. “Sim”, respondi, “assim como é diferente fotografar – mulheres ou homens – na Índia, no Brasil, no Benim”. Em minha mais recente viagem à Ásia, decidi lançar a mim mesma o desafio de fotografar apenas mulheres. Foi um desafio e tanto. Cheguei a pensar em desistir. E por isso mesmo a pergunta do meu amigo indiano (e fotógrafo), sem que ele soubesse, foi tão pertinente. Porque, sim, é muitíssimo diferente fotografar mulheres e homens na Índia.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.