Paris de Janeiro (jan. 2010)

Antes de encaixar a cestinha na bicicleta e abrir as janelas para trocar o ar “calefacionado” da casa, rego as plantas da janela Sul, que no inverno conquistam poucas e valiosas horinhas de raios de sol, e as da janela Norte, menos favorecidas luminarmente, mas por essa mesma razão estrategicamente posicionadas por família e reino. Tudo pronto. Na saída, cruzo com o senhor do bigode que, diante de outro insistente e sorridente bonjour, me decepciona mais uma vez com um sonoro silêncio, e desvia o olhar. A família chinesa do primeiro andar cozinha algo de fortíssimo aroma, e a lata de lixo reciclado chega ao limite de sua absorção semanal. É um sábado de janeiro.

Os bons cidadãos de fim de semana e clientes fiéis se espantam, com uma ponta de inveja, diante da calorosa saudação gaulesa que recebo da dame da padaria da esquina. Um sorriso e um “como vai”. Suspeito ser a melhor padaria do mundo, tratando-se da melhor que já encontrei na França e sendo este o reino da massa folhada e assada com muita manteiga. O tiozinho das frutas já separa os kiwis, as bananas e laranjas – “nada de saco plástico, já sei”, ele diz, não sei ao certo se para mim ou para si próprio –, e a garota bem-vestida, acompanhada de um saudável cachorro, ocupa seu posto habitual na esquina, braços em punho, mãos abertas para o céu, como em oração, o ritual diário de seu ganha pão na porta do açougue.

Morro acima, passagem pelo parque; muitas bicicletas neste trajeto. Será por que é sábado? Por que faz sol? Não necessariamente. Há sempre muitas bicicletas, e muitos sorrisos de cumplicidade entre os que optam pelo método de transporte da moda entre os ambientalistas vigilantes. Vovós, fumantes, mães com dois filhos, mendigos, vovôs com guarda-chuvas. Todos sobre duas rodas.

Dia de bicicleta, dia de feira. E é nela que chego à minha. Para encontrar Jean-Michel, o camponês de dedos espessos que, semanalmente, traz nossos legumes e frutas. Cada um pesa o seu. “Um cesto inteiro ou meio cesto?” “Só meio”, respondo, “senão terei que dar batatas e cenouras de presente em todos os aniversários do ano!”, completo só em pensamentos. “Sete e cinqüenta, mademoiselle”, Jean-Michel me lembra, entre suas abóboras e garrafas de mel natural. Quem sabe daqui uns meses a gente começa a se cumprimentar, tal e qual ocorreu com a senhora da padaria. Não há pressa. Afinal, sábado que vem estou de volta, e ele também.

A volta para casa exige novo equilíbrio. A cestinha quando cheia muda o senso de gravidade da bicicleta, mas para baixo… já sabe. Em casa, enquanto as cenouras de orgulhar Pernalonga decantam a grossa terra de molho na pia e as verduras secam sobre o pano de prato, um pão caseiro descansa ao lado da calefação para fazer a massa crescer. Ainda faltam 45 minutos, e enquanto isso aproveito para colocar um chimarrão na cuia e checar a correspondência. Uma carta da prefeitura solicita novos documentos – mais precisos e mais inúteis – a respeito do meu estado civil, minha fonte de renda, meu visto de permanência, meus objetivos a curto e longo prazo neste país. Quanta celulose. Quanto carimbo. Quanta carta de motivação. Burocracia que se cumpre a fim de colher os benefícios em vias de extinção de um Estado maternal. Os livre-empreendedores que me perdoem, mas não deixo passar os auxílios moradia, saúde, transporte, alimentação e ainda descubro os incentivos à viagem de férias, ao retiro espiritual, à prática esportiva. Quem sabe ainda consigo deixar a declaração de próprio punho no correio esta tarde.

As verduras já secaram e o pão, devidamente recheado com nozes e castanhas, está no forno. A vizinha toca a campainha para deixar as chaves de casa, com precisas orientações sobre a quantidade de água e luz necessárias à sobrevivência de cada plantinha, e o leite, os sucos e os queijos que mofariam em sua geladeira durante a ausência são o presente de despedida. Bon voyage. “A prefeitura do quartier já instalou um posto de coleta de pinheiros de Natal em frente ao parque”, ela me lembra, e prometo, na semana que vem, deixar o seco símbolo natalino na caçamba que se enche de tristes arvorezinhas resignadas. “Aproveito também para deixar as pilhas e lâmpadas usadas no recipiente do mercado ao lado”, penso eu; “fica no caminho”.

Começa a nevar. Bem de leve. Tão leve que os flocos parecem traçar um movimento ascendente, girando, como vaga-lumes, subindo ao redor das luminárias de rua – a esta época acesos desde o final da tarde que, confusa, virou noite antes da hora. Agasalhada e com as bochechas levemente rosadas por causa do frio vento que bate no rosto em movimento sobre rodas, brinco em ziguezague sobre o asfalto encoberto. Sinalizo com o braço esquerdo para passar pelo cruzamento, atravesso a ponte sobre o canal, vejo a espessa camada de gelo onde os pássaros passeiam, caminhando sobre as águas, e começo a perder o tato nos dedos dos pés e das mãos.

Paris, para mim, é isto. Em janeiro.  Meu bairro. Minha vidinha.

Aqui fora faz -7 graus Celsius. De relance, vejo um jornal repousando, esquecido, sobre uma cadeira em um café. “Franceses são o povo mais pessimista do mundo, conclui pesquisa”. Uma foto de uma cinza fila de metrô me diz sobre a greve no sistema de transportes da capital enquanto a outra mostra os centros de vacinação contra a gripe A. Penso ainda na Paris dos turistas perdidos ao redor da Galerie Lafayette. Amontoados em frente à fonte de Saint-Michel ou nas filas da Notre Dame.

E fico intrigada com a verdade destas tantas cidades em uma só. Tantas pessoas, tantas vidinhas, mas só uma Paris.

14 thoughts on “Paris de Janeiro (jan. 2010)

  1. Que carinho fez teu texto na minha saudade, Maria. Com toda a sensibilidade você vai tecendo as melhores memórias e o melhor de Paris. Obrigada pelo post!

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  2. Acho que vale uma coleção: “Maria e as cidades”. LA, Kétou, Paris! As cidades visíveis, um olhar muito sensível. Demais!

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  3. Clap clap clap!
    Très bien, Maria!😉
    E eu que nunca fui a Paris me vi na garupa da bicicleta, admirando cada centímetro percorrido entre as ruas da cidade-luz e as linhas de seu texto. Brilhante– e poético! Lembrou-me estes versos de Brecht, que epigrafam um poema de Benedetti: “Me parezco al que llevaba el ladrillo consigo/ para mostrar al mundo cómo era su casa”– você nos leva a ela de bicicleta.

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    • Ei Fred,
      obrigada pelo comentário🙂
      Sempre, o melhor de tudo, a grande recompensa da escrita, é saber que o texto funcionou, que tocou, deu medo, deu raiva, deu nojo, emoção, tristeza ou alegria.
      Pra mim, é sempre o melhor elogio saber que deu certo!
      Obrigada mais uma vez!

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  4. Mary, também adorei… Lembrei demais dos dias que passamos em Paris juntas… e realmente o texto nos faz sentir parte da sua vidinha lá!!!

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    • Clair, nossa viagem a paris juntas foi inesquecível, mesmo depois a cidade tendo virado minha casa… foi um início de uma bela e feliz era da minha vida.
      E você foi a melhor parceira de viagem que já encontrei…❤

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