Don e Dean (português)

Parece ser a tarde. É difícil precisar. O que é certo é que o raio de sol que corta a barreira de apartamentos empoleirados e se reflete na janela da velhinha de frente aterrissa triangularmente na parede do quarto, logo acima da quina de fronha que escapa da cobertura dos lençóis azul intenso. A cama sob o edredom verde cítrico está ao lado da prateleira de livros e da poltrona – os únicos móveis do cômodo, não fosse o pufe de couro envelhecido e desgastado que repousa displicentemente do outro lado do quarto (mas pufes não contam como móveis). O calor, é o que ambos pensam, drena o ar de toda sua humidade.

Dean não percebe, mas ignora as carícias melódicas que Don aplica nas cordas do violão de cabeceira, muito embora seu olhar alerta sugira o contrário. Com o dedão direito e insistência mecânica, percorre a superfície da unha do mindinho da mesma mão, seguindo a linha branca de sua extremidade dáctila. Está descalço e sem camisa. Subitamente tomado por uma câimbra hipotética que estaria levando seus membros inferiores à dormência, Dean se ergue de um salto em um movimento rígido, em seguida lânguido, e que termina com um passo ao lado e uma acomodação uterina no aconchego da poltrona. “Tá quente”, ele diz sem forçosamente se endereçar a Don. O ruído do relógio é audível; o mesmo relógio que haviam encontrado na entrada do prédio uns dias antes. Nem sempre é fácil distinguir seu tic-tac ritmado em meio a sirenes e sinais escolares vizinhos. Ainda que de fundos, o apartamento de Don não se isenta destes lembretes cotidianos da vida e da morte que se entrecruzam lá fora. Neste sábado, contudo, não há obstáculos ao relógio de ponteiros. E ele corre sem freios.

Respondendo sem querer ao que não foi indagado, Don ergue o olhar para o teto para traçar o contorno das nuvens imaginárias de calor que pairam sem movimento e sem leveza sobre suas cabeças. A mirada o alerta para a textura de sua própria cabeleira repousando sobre os ombros e também a do calor, seco, que se propaga no encontro dos cabelos com o pescoço. “Preciso fazer a barba esses dias”, pensa consigo, se justificando mais do que se motivando, sabendo muito bem de sua afeição por pêlos faciais – inclusive os de outrem, mas em especial os seus próprios. A palheta pesa diferente entre os dedos. A humidade entre a epiderme e o plástico que a recobre forma uma camada de matéria, real e tangível. “Shabop shalom”, faz Don com finos movimentos dedilhados que levam as cordas melódicas a ressoar e interromper a marcha determinada e indomada do relógio. “Marchando para onde, afinal?”, ambos poderiam se perguntar em silêncio concomitante, suspeitos de sua sincronia sem verbos, mas sem nenhuma certeza. Diante de tal o hesitação, o relógio segue sem vacilar.

“Um outro?”, responde Dean à consciência textural de Don. A pergunta – menos em busca de aprovação que o despertar de seus próprios desejos – afirma. “Um outro.” Agora é tarde demais para isso, já que as palavras escapolem de seus lábios com uma implacável interrogação final. Paralisado na poltrona, Dean no fundo sabe que, ainda assim, a assertiva não faria jus a suas aspirações mais íntimas. O silêncio sim; seguido – quem sabe – pela quebra da inércia que traduz com tamanha fidelidade suas vontades. Ele vê o movimento antes de efetuá-lo. Assim move-se o tempo.

“Não tô sentindo minha mão”, é o sussurro de Don, quase inaudível para Dean, que se mantém sem surpresa ou preocupação, interpretando o papel ensaiado meditativamente. Encarando a palheta estendida sobre a mão – pequena, triangular, azul-desbotado – seus pensamentos se distanciam do quarto para a lembrança de informações aleatórias recentemente lidas sobre o cara que abriu caminho para a comercialização de CDs. Não se ouve mais música pela carícia de seus dedos sobre as cordas, e delas, para todo o quarto, agora todo tomado de vapor e fumaça umedecida. Adiante, o relógio, sempre adiante, batendo. Dean também o ouve e fixa o olhar de Don. “Acabou”. Diante de tal assertiva, Don desvia o olhar para a palheta e dela para o raio de sol – repartido agora em cubos assimétricos – e sorri.

Os olhares se cruzam. Não os dedos. Embora o relógio possa sugerir o contrário, o tempo acelera e freia simultaneamente, alcança. E chega a tempo. Não se sabe quanto tempo se passa antes que suas pálpebras – as quatro – respondam ao comando neural que ordena, sem negociação, que, em coreografado movimento vertical, eles pisquem. Não há mais sinal da palheta, embora o violão descanse cuidadosamente ao lado da poltrona. A umidade dissipa-se pela brisa fresca; janelas completamente abertas. O tic-tac não se ouve. As ruas clamam, assim como falam vizinhos no andar de baixo – o som de uma vitrola irradiando jazz ao piano preenche todo o banheiro com sua reverberação sincopada. Só não estão Don e Dean para ouvi-lo. É domingo. É verão, e com o cair da noite, deixam atrás de si um rastro de quarto e vapor. Lá fora como aqui, o tempo é o mesmo.

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