Diga-me com quem, em que e que horas andas em Los Angeles (2008)

Ford Impala @ Topanga Canyon
(by Fábio Nascimento)

Uma vez vi o sociólogo Roberto da Matta falando sobre a sociologia por trás do comportamento dos motoristas. Ele falava da nossa agressividade no volante, do sentimento de poder dentro daquela máquina blindada, de como só brasileiro mesmo que acelera o carro quando vê um sinal amarelo e um pedestre ameaçando pisar a faixa listrada. Achei a analogia muito boa e, quando saí dali, passei imediatamente a reparar no meu comportamento, e no dos demais, quando dentro de nossos veículos. E isso ficou comigo.

Agora vivo em Los Angeles, onde as leis de trânsito são semelhantes, mas o pathos por trás da analogia de Roberto da Matta é completamente diferente. Diga-me com quem andas que eu te direi quem és, assim segue o ditado. Em dialeto “angeleno” (o habitante de Los Angeles), adaptamos para diga-me em que andas que eu te direi quem és. Em pouco tempo aqui, me lembrei também da observação do personagem interpretado por Don Cheadle do filme “Crash”, de Paul Haggis e vencedor do Oscar, sobre o transporte público: os ônibus, à noite, andam com as luzes internas acesas, segundo o cara do filme, para humilhar quem anda dentro e expor o negro, o latino, o imigrante, o pobre, a mulher, a minoria.

Na época, embora conhecesse bem a segregação racial nos Estados Unidos, achei curioso. Os países europeus se orgulham de seus sistemas de transportes públicos. Não ter um carro em Londres ou Paris não é uma vergonha, é um luxo. Significa que você vive em uma cidade onde o serviço de transportes tem qualidade, segurança e cobertura. Você não se preocupa com seguro do carro, estacionamento, dirigir embriagado, manutenção – que libertação. O Brasil se diz apaixonado por carros, mas também tem seu pé europeu: na hora de alugar um imóvel, pesa muito a distância da estação de metrô ou do ponto de ônibus.

À exceção de Nova York, os Estados Unidos são uma terra de carros. A cultura automobilística é fortíssima. Mas nunca havia visto nada parecido com Los Angeles. Para começar, o metrô é uma piada, pior que o do Rio antes de ser expandido. E Los Angeles, me permito a comparação, é tipo Brasília. Um lugar visivelmente diferente do resto do país e que divide as opiniões com veemência: os que amam e os que detestam. E os carros têm papel importantíssimo nessas reações.

Com freqüência os amigos do Brasil me perguntam se moro perto da praia. Normal, afinal faz parte do imaginário da cidade das estrelas: Malibu, “Garota eu vou para a Califórnia”, e por aí vai. Respondo com dúvida. Em termos brasileiros, estou longe, pelo menos 20 minutos de carro (sem trânsito), nem sei calcular a que distância a pé. Em escala americana/angelena, vivo à beira mar. Para entender, olhe um mapa da área metropolitana da cidade e veja sua extensão. Uma linha imaginária divide a cidade em Leste e Oeste, assunto para outra coluna, e como habitante do Oeste, sou, para eles, da praia.

Os 20 minutos a que me referi acima são muito interessantes. Por aqui ouvimos muito que quaisquer dois pontos de Los Angeles estão a 20 minutos de distância entre si (sem trânsito). O que é verdade, pois com as super freeways construídas sobre a cidade, você potencialmente voaria de uma extremidade à outra. Mas a gente sempre coloca essa informação no final, sem trânsito entre parêntesis, como se ela fosse um detalhe. Até parece. É a regra, praticamente um toque de recolher! Com ou sem previsão, esses 20 minutos podem virar duas horas e definem mais seu comportamento aqui do que seu dinheiro, sua raça, sua classe social. Pobres e ricos, Britney Spears, Angelina Jolie e eu, somos todas reféns do trânsito. Diga-me a que horas andas que eu te direi quem és. Por que acha que Lindsay Lohan só é pega de madrugada voando acima do limite de velocidade em sua caminhonete? Voar de dia, só de avião ou helicóptero.

Algumas dessas dicas são leis. Idas ao cinema são marcadas com semanas de antecedência, nunca sai-se de casa sem uma breve pesquisa no Google Maps se você não tiver um GPS, só para ter certeza de que sabemos onde vamos e de que se chega a algum lugar naquela hora, e nunca programe mais de uma coisa no mesmo dia. Das 6h às 9h, engarrafamento. Sem dúvida, em todas as direções. Uma breve janela de horinhas nos deixa vislumbrar como seria lindo se o fluxo de carros fosse 15 vezes menor. Às 14h, 14h30, complica de novo. Daí vai até umas 19h. Sexta-feira: trânsito o dia inteiro, ainda não entendi porque. Sábado e Domingo, formigueiro humano no sentido da praia e um maravilhoso deserto no restante.

Já dizia Caetano que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Uma conhecida uma vez me apontou que o maior orgulho do angeleno é a Interstate 405, a San Diego Freeway, que corta a cidade de Norte a Sul, perto do mar. Muitas outras cortam a cidade além da 405: a 10 (Santa Monica), a 110 (Harbor), a 101 (Hollywood), para citar as mais centrais. São a padaria da esquina. As vemos todos os dias, são nossas referências e as apontamos com orgulho ao visitante: “olha a 405!”. Encucado, com certeza, o coitado se pergunta “e daí?”. Eu também me fazia essa pergunta quando cheguei aqui, mas, lentamente, sem me dar conta, a 405 foi virando para mim o que é para eles: nossa maior dor e estranhamente nossa secreta delícia. Nesta terra de bens descartáveis e de beleza arquitetônica escondida, as freeways são o maior símbolo da vontade humana que transformou um deserto sem rios em cidade. Mais que a praia ou Hollywood, o angelino se orgulha de suas estradas. E só o tempo ajuda a entender.

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