A era de ouro punk

Em outubro de 2006, fui cobrir o TIM Festival, na Marina da Glória do Rio de Janeiro. Cheguei mais cedo, sozinha, para ver a apresentação de Herbie Hancock. Recostei-me no bar, ao fundo. Ele também, cotovelos apoiados sobre o balcão. Lenny Kaye. Reconheci-o na hora. Tinha visto-o no palco na noite anterior com Patti Smith, um show que me surpreendera pelo punch. Reconheci-o, em parte, pelas longas pernas, tão finas nas skinny jeans. Lenny é um personagem ativo da bíblia punk “Please kill me” (“Mate-me por favor”), o livro escrito pelos jornalistas Larry “Legs” McNeil e Gilliam McCain, inteiramente com falas diretas de personagens reais da cena musical de Nova York, do final dos anos 60 ao inicinho dos anos 90.

Estávamos ambos sozinhos. Resolvi puxar papo. Falei que gostei do show. Ele sorriu com os lábios selados. Me comprou uma cerveja. E paramos de prestar atenção no show. Lenny me contou do show de despedida em que tocara com Patti, na última noite de funcionamento do CBGB – o QG punk. Eu devorei cada detalhe. Ali estava um sobrevivente de uma nostalgia utópica que eu jamais viveria. Contive meu entusiasmo para que a noite não acabasse rápido demais.

Após o show, Lenny precisou ir ao backstage dar satisfação a sua equipe. Ele queria ficar, ver mais shows, curtir a noite quente do Rio de Janeiro à beira mar; em suma, se jogar. Fiquei incumbida de assegurar seu bem-estar até a hora em que ele quisesse ir embora, quando a van voltaria para buscá-lo. Passamos pelas pedras da Marina para ver o mar e terminamos na tenda principal. Chegamos justo para o show de abertura do Yeah Yeah Yeahs. Não curto a banda, mas Lenny não parecia se importar. Estava se divertindo. Alguns fãs o reconheceram. Se aproximaram, tímidos. Ele bebeu pouco e dançou bastante. Magrinho de tudo, com a cabeleira abaixo das orelhas e de um branco imaculado. Terminamos a noite pulando ao som dos Beastie Boys. Nos despedimos. E nunca mais o vi.

Corta para 2011. Um amigão pernambucano me sugere ler “Just kids” (“Só garotos”), da Patti Smith. Amei e deixei o livro todo rabiscado a caneta. Nele, a poetisa punk escreve fragmentos de memórias. De sua mudança para Nova York, no fim dos anos 60, até o fim dos anos 80, período pelo qual se estendeu sua relação amoroso-artística-espiritual-fraterna com Robert Mapplethorpe, o infame artista plástico e fotógrafo. Patti foi então a Paris receber um prêmio pela publicação, concedido pela revista Inrockuptibles (Inrockuptíveis), a Rolling Stone Magazine da França. A entrega foi no Gibus, a casa-templo onde os Beatles tocaram. E fui lá com outro amigão, esse mineiro.

Chegamos na mesma hora que a autora, entramos juntos, e o que acompanhamos foi bonito. Um lugar pequeno, apertado. Ali só tinha fã de verdade. Gritaria, empurra-empurra, fotos e autógrafos? Nenhuma dessas coisas. Só aplausos. Sinceros e elegantes. Ele desfilou, com timidez enternecedora, adentrando o bar. Parou ao fundo, onde a mandaram ficar. Olhava para gente. Sem maquiagem alguma. Camiseta branca e larga. Jaqueta velha. Tranças grisalhas ao lado da cabeça. Dentes muito amarelos. Uma expressão envergonhada e sem pressa. Deu um passo a frente e me olhou nos olhos. “Não sei o que dizer. Ou fazer”, falou e deu de ombros, sem tirar as mãos dos bolsos. “É. Ninguém sabe”, respondi esperando ajudar. Parei. E prossegui. “Tenho certeza de que você ouve isso o tempo todo, mas eu realmente amei seu livro. Foi a melhor coisa que li em muito tempo. Tão honesto, tão lindo”, falei por fim, atropelada pelo silêncio ensurdecedor que ameaçou se instaurar. Ela balançou a cabeça, fechou um pouco os olhos, em gesto de gratidão.

Me calei. Passei a ela os dois livros que tinha em mãos. Ela perguntou se era a edição inglesa e respondi que achava que sim, pois tinha comprado na Europa. Ela olhou a foto da capa. Ela e Robert. “Prefiro essa foto da capa aqui, mais do que a da versão americana”. Observei-a observar o livro. Ela então assinou meu exemplar e o outro, para meu amigo. “Foi ele quem me sugeriu ‘Just kids’”, expliquei. “É um presente especial.” Peguei meus dois exemplares e dei espaço aos demais leitores, todos com livros nas mãos. Em poucos minutos, Patti estava sozinha outra vez, no canto do bar. As mãos continuavam nos bolsos. O olhar era curioso, como os nossos. Nos fitamos e ela, de novo, deu de ombros, embaraçada. Sorrimos. Me aproximei. Contei a ela meu encontro etílico com Lenny, cinco anos antes, no Rio de Janeiro. Dei o máximo de detalhes de que pude me lembrar, falando alto em seu ouvido para romper o ruído ambiente. “Esta história é a cara dele”, aprovou com bondade. Perguntei se ele ainda estava em Nova York. Contei que desde então, após uns dois e-mails, não tínhamos mais nos falado. “Ele está lá. Ele está sempre lá. Agora mais velhinho.”

Nunca fui fã de Patti Smith, nem de Lenny Kaye. Mas se existe uma Era de Ouro, para mim, ela foi Nova York nos anos 60 e 70. É meu Oásis atemporal, para onde minhas fantasias vagam num sábado à tarde. E “Just kids” é “Please kill me” apaixonado. Me rendi. A prosa de Patti memorialista, sensível e articulada, me tocou muito mais que sua poesia punk, declamada. Senti, nos dedos ao passar as páginas, seu amor por Robert. Alimentei-me dele. Lembrei-me de Lenny, no Rio, do pernambucano que nunca recebeu o livro extraviado. Nutri-me daqueles dois encontros. E o que me veio à mente, de súbito, foi esse trecho do livro: “I understood that in this small space of time, we had mutually surrendered our loneliness and replaced it with trust” (Entendi que neste pequeno espaço de tempo, havíamos ambos rendido nossa solidão e substituído-a pela confiança). E não há nada de fantasioso nisso. No fundo, toda história é sobre um amor; toda cidade também é uma história. E é no meio dos dois que voltamos a ser garotos.

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