Troca de presentes

É quase Natal e pensei em minha tia em Los Angeles, que tem a seguinte filosofia: nada diz tanto sobre o futuro promissor ou não de uma relação quanto 1) a qualidade do sono a dois e 2) a troca de presentes. Ela pleiteia que o sucesso de uma união pode estar escrito nos fios do lençol. Que o “felizes para sempre” é, em grande parte, determinado pelo encaixe coreografado da conchinha noturna. E, mais do que isso, o acerto dos presentes é fundamental. Quando o casal acerta e oferece aquilo que o outro desejava, em segredo, alcança um recôncavo íntimo de afeto. Para ela, eis a receita da longevidade de uma relação amorosa. Dormir e presentear.

Fui me rendendo a essa ideia. No Natal de 2009, ganhei uma foto do céu. Um bonequinho de tecido costurado a mão e inspirado no meu bichinho de pelúcia da infância. Um livro de trava-línguas em francês, para crianças. Dei um livro de minha biblioteca pessoal. Um cachecol usado. Um pão caseiro. Um manuscrito original rabiscado. Naquele ano em Paris, propus a minha família adquirida – meus amigos do peito, braços, pernas e fígado – que não gastássemos dinheiro com presentes. O acordo era trocar apenas pertences doados de nosso acervo pessoal ou fabricados manualmente para aquela ocasião. Éramos somente oito, não foi muito complicado. E foi o Natal mais especial até hoje.

A inspiração veio de um conto de Paul Auster e o gesto ficou. Isso porque eu já tinha uma filosofia que pratico com os demais em função do que acredito que valha para mim. Não gosto de presentear ou de ser presenteada por default. A pressão por uma compra, apenas pela premência da data, me deixa aflita. É arbitrária e rouba o significado de um gesto que deveria ser, sempre, sincero. Presentear é uma forma de amar. Deve ser feito com zelo. Quando alguém que nós amamos erra muito ao nos presentear, podemos sentir-nos mal-lidos, até malquistos. É pessoal. Provavelmente, o outro agiu sem vontade, comprou sem tesão. Um erro. Para acertar é preciso tempo. Degustação. Algo que melhora com a intimidade. E só muito de vez em quando acontece naturalmente, à primeira vista.

Há cerca de 5 anos, comecei a cortar pertences na vida. Fruto de muita mudança. Muita mala feita. Muita coisa perdida, ou deixada pra trás, com e sem remorsos. Da transição de um armário inteiro para uma única porta de guarda-roupas. Fui me desapegando das coisas extras. E preferindo ter apenas o que me fosse necessário, pois o supérfluo, cedo ou tarde, acabava abandonado na casa de alguém, quando a mala seguinte não fechava. Acostumei-me aos espaços pequenos, junto com o jetlag. E, mais do que nunca, desenvolvi apreço pelos presentes bem-dados. Os certeiros. Aqueles que eu não deixo, nunca, para trás.

E destes, não me desfaço facilmente. Meus amigos riem de mim. Sempre com a mesma bota. A mesma bolsa. O relógio de 10 anos. Dou livros rabiscados de presente. Nunca acho que é hora de jogar algo fora. Que dá para remodelar, recauchutar, bricolar. E acho que sempre fui assim. Chegada em coisas usadas, precedidas de história, iniciada lá atrás. Prefiro isso ao objeto novo, imaculado e desencarnado. Quando dou um pertence meu a alguém, ele naturalmente segue com uma parte minha, um pedacinho que não cabe num postal, que não vende no shopping. E aviso logo: não dou garantia de três meses; só vitalícia.

Porque presente bom não acaba, se desdobra em outros, gera vida. Uma viagem. Uma música. Uma visita. Um ingresso para um show inesquecível. Uma carta. O presente mais certeiro que eu já recebi foi uma câmera de fotografia Canon-AE1, faz quatro anos. Mudou meu jeito de olhar as coisas ao meu redor. Não há gratidão prevista para isso. E foi um desses à primeira vista, sem ensaio. Nunca foi deixada para trás. Replica-se. É um pedacinho de vida, uma porção de alguém. E foi, realmente, precedida de uma conchinha perfeita.

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