E quem descansa nas férias?

Esse texto foi publicado na revista “Viagem e Turismo”, de agosto de 2018.

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“O tempo das coisas”: lançamento em JF e SP

Quando você vai preparar um chá, tem o tempo de fervura da água, o momento da infusão, a espera pelo resfriamento e só então a ingestão da bebida. Não dá pra mudar a ordem dos fatores nem o tempo que cada um deles demanda. A água só vai ferver a 100 graus C, a erva precisa de alguns minutinhos na água quente pra ser infundida e se você não esperar esfriar vai queimar a língua. As coisas têm seu tempo. E embora os tempos hoje sejam de afobação, o chá ainda toma o tempo que toma pra ficar pronto. E tudo indica que vai continuar sendo assim. Saber disso, no corpo e na alma, é o que eu chamo de sabedoria.

 

Reflexões sobre o tempo são sempre bem-vindas. E também sobre a vida, cujas melhores coisas não são as coisas, propriamente ditas. A tecnologia, a correria, os olhos no relógio, os ouvidos tapados por fones nos isolam de um convívio mais próximo com o outro e de um olhar mais apurado. Não há tempo para parar, olhar e sentir.

Esse tempo que nos falta, no entanto, Maria Bitarello, felizmente o tem. Fabricou-o, optou por ele, priorizou-o e o fez virar livro, para o nosso deleite e transformação. Sim, porque será impossível não sair ao menos minimamente transformado da leitura de O tempo das coisas, sua segunda coletânea de crônicas e primeira a ser lançada pela In Media Res Editora.

São 28 textos que falam de situações banais, cotidianas e de como elas ganham importância quando recebem a devida atenção.

É impecável a reflexão da autora sobre a vida noturna, considerada por ela um ritual de iniciação à vida. E sua percepção sobre o quanto um dedo mindinho quebrado pode atrapalhar nossa rotina numa proporção inimaginável, ao mesmo tempo em que o desprender-se das coisas pode tornar nossos dias bem mais leves.

Numa parada para olhar o entorno, Maria vê que há tanta riqueza filosófica nos escritos de Nietzsche quanto na moradora de rua que se banha na Av. Paulista. E que fotografar, comer o que se quer e resistir ao uso desenfreado dos smartphones podem ser ações libertadoras. Há o envelhecimento, o aborto e a morte vistos e falados com seriedade e serenidade. E o tempo, o grande tesouro dos nossos dias. O tempo que não pode ser abreviado por ser necessário, por significar processo. O tempo da fervura da água e da infusão do chá. O tempo da parada, do olhar, da escrita e da leitura com que Maria generosamente nos brinda.

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Maria Bitarello é mineira. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Literatura Luso-Brasileira pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), cresceu entre o Brasil e os Estados Unidos e viveu em Paris antes de se estabelecer em São Paulo, em 2012. É escritora, tradutora e jornalista e, desde 2015, trabalha no Teatro Oficina.

 

Ilustração da capa: Praça Roosevelt, by Letícia Coura

Os modernistas se divertem

Pagu (Nash Laila), Av. Paulista, 8 de março 2018

Pagu (Nash Laila), Tarsila do Amaral (Letícia Coura) e Heloísa de Lesbos (Sylvia Prado), Av. Paulista, 8 de março 2018

Tarsila do Amaral (Letícia Coura) e Heloísa de Lesbos (Sylvia Prado), Av. Paulista, 8 de março 2018

Tarsila do Amaral (Letícia Coura) e Pagu (Nash Laila), Av. Paulista, 8 de março 2018

Tarsila do Amaral (Letícia Coura) e Pagu (Nash Laila), Av. Paulista, 8 de março 2018

Renée Gumiel (Gabi Campos), Av. Paulista, 8 de março 2018

Tarsila do Amaral (Letícia Coura), Av. Paulista, 8 de março 2018

Vera Valdez como ela mesma, diva – Av. Paulista, 8 de março 2018

O homem amarelo (de Anita Malfatti) – Túlio Starling, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Dayse (Nash Laila), Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

O homem amarelo (de Anita Malfatti) – Túlio Starling, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Tarsila do Amaral (Letícia Coura) ao cavaquinho, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Yan de Almeida Prado (Isabela Mariotto), Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Pintura de Anitta Malfatti – Joana Medeiros, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Pintura de Anitta Malfatti e seu boy – Joana Medeiros e Gabi Campos, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Personagens de pinturas de Anitta Malfatti – Grande encontro – Túlio Starling e Joana Medeiros, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Modernistas Futebol Clube: boy Carina Iglecias (ao fundo), Homem amarelo (Túlio Starling), Glória, a professora de piano lésbica (Cynthia Monteiro), modernista não identificada (Clarisse Johansson), boy (Gabi Campos), modernista não identificada 2 (Sylvia Prado), pintura da Anita Malfatti (Joana Medeiros), Yan de Almeida Prado (Isabela Mariotto) e Tarsila do Amaral (Letícia Coura) – Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

8 de março, na Av. Paulista e 27 de março,
no Largo do Paissandu – São Paulo – Brasil 2018
Canon AE-1 / Kodak Portra 400
by Maria Bitarello

Minimalismo contra o capitalismo

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Por quase 3 anos, morei em casal em uma quitinete de 24m2, no último andar de um predinho em Paris. Um cômodo, uma cozinha separada por uma parede, um banheiro. Na cozinha, uma placa elétrica de duas bocas, um pequeno forno também elétrico, um mini-frigobar, pia simples, pouco espaço pra utensílios e também pra comida. As compras eram feitas gradualmente e repostas à medida que eram comidas; não dava pra estocar nada. Pra cozinhar, era preciso ir lavando, secando e liberando a única superfície sobre a pia que servia tanto pro escorredor quanto pra tábua. O quarto era simbolicamente dividido por uma estante; de um lado a cama, do outro a mesa de trabalho, tipo escritório. Havia uma poltrona, uma luminária, um violão, livros, um espelho, uma cortina separando a cozinha. O guarda-roupa embutido tinha três portas baixas; uma delas pra mim. E só. Todas as minhas roupas estavam no espaço de arara que me cabia ali naquela porta, algumas dobradas embaixo, um único par de botas pra todas as ocasiões. No térreo, uma bicicleta. O aluguel era barato, o bairro delicioso, a vida descomplicada.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

A cura peripatética

Desde que me mudei pra São Paulo, há mais de cinco anos, a maior dificuldade de adaptação à cidade que encontrei é a insuficiência de lugares verdes, abertos, de natureza. Mesmo sendo eu uma apreciadora cotidiana das frondosas árvores que, por razões inexplicáveis pra mim, continuam sobrevivendo com exuberância até nas partes mais concretadas da cidade. Mesmo assim. Faltam respiros em meio aos edifícios, locais não especulados imobiliariamente. Falta horizonte. Céu. Silêncio. E faço aqui de São Paulo uma metonímia, uma parte pelo todo, uma cidade representando as grandes metrópoles onde, cada uma a sua maneira regional/cultural, os desafios da vida urbana se apresentam de forma parecida.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

Uma mulher, Dot Fisher-Smith

Semana passada fui à ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na Av. Paulista e fotografei algumas mulheres dali, uma ideia que venho trabalhando (falei sobre isso nesse texto). Uma delas, que não quis ter sua foto tirada, me perguntou porque eu só fotografava mulheres. Respondi que os homens já ocupam muito espaço, em todas as esferas. Ela esboçou um princípio de sorriso, triste. “É. Quem toca a vida são as mulheres mesmo”. Concordei com a cabeça e imediatamente lembrei-me do que me disseram certa vez: “você só pode ter sido criada por um matriarcado. Tem uma força aí que é do feminino”.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

Mogol, o ninho da raposa amarela

A 33km de Ibitipoca, em Minas, está o arraial do Mogol. Antigamente, 15 casas eram habitadas, havia um bar. Hoje, 9 casas ainda abrigam famílias. A escola fechou. A igreja está de pé. Ela guarda as imagens do santos que sobreviveram à queda da capela que havia no alto do Pico do Pião, dentro do Parque Estadual do Ibitipoca.

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Lucinha no alto do arraial com carro da Sauá Turismo

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Casa 1

As casas vazias continuam lá.

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Casa 2

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Lucinha

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Mogol de cima

Uma vez por mês, um médico visita o arraial. Pra fazer compras, as famílias esperam o ônibus para Lima Duarte, que sobe a cada 15 dias.

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Arraial sob a cruz

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Vista do alto

Os habitantes do Mogol têm um sotaque próprio; cantado. Gostoso que só.

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Lucinha

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Santos quebrados ao pé da cruz

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Nós que aqui estamos por vós esperamos

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Lucinha e o cemitério

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Casa 3

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Casas

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Cão e casa

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Casa 4

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Rita e Lucinha

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Casa 5

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Casa 6

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Igreja e casa da Rita e do José

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Rita na cozinha de casa

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Café com queijo na cozinha da casa da Rita

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Gabriel e Rita na cozinha da casa dela

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Vista da cozinha da casa da Rita

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Rita

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José

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Rita

Rita mudou-se pra lá há 37 anos, quando se casou com José.

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Rita e José

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José e Rita

“Aqui é o ninho da raposa amarela”, diz Rita.

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Mogol lá embaixo

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Árvore atingida por raio

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Mogol lá embaixo de novo

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Árvore atingida pelo raio revive

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Areal e mar de morros

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Árvore, ninho, paredão e areal

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Dona Maria do pão de canela / Ibitipoca

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Josué da cachaça Fortes moendo cana / Ibitipoca

Photos by Maria Bitarello
Canon AE-1 / Kodak Portra 400
Mogol / Ibitipoca MG – 2016