É sempre hoje

Robert Pirsig abre o posfácio da edição que eu tenho do livro “Zen e a arte de manutenção de motocicletas” contando que, na Grécia Antiga, a noção de tempo era a inversa da que conhecemos hoje no Ocidente. Ou seja, caminha-se para o futuro de costas, pois o futuro é desconhecido. E o passado está à nossa frente, aquilo que podemos ver. Não sei você, mas eu acho essa percepção do tempo bem mais fidedigna ao que experimentamos empiricamente na vida do que a ideia de que o futuro está adiante e o passado, atrás. Do passado sabemos – ao menos uma parte –, embora a memória seja uma faculdade criativa sempre em construção, alterando sem cessar nossa percepção do que passou. E o futuro, quem sabe dele?

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A cura peripatética

Desde que me mudei pra São Paulo, há mais de cinco anos, a maior dificuldade de adaptação à cidade que encontrei é a insuficiência de lugares verdes, abertos, de natureza. Mesmo sendo eu uma apreciadora cotidiana das frondosas árvores que, por razões inexplicáveis pra mim, continuam sobrevivendo com exuberância até nas partes mais concretadas da cidade. Mesmo assim. Faltam respiros em meio aos edifícios, locais não especulados imobiliariamente. Falta horizonte. Céu. Silêncio. E faço aqui de São Paulo uma metonímia, uma parte pelo todo, uma cidade representando as grandes metrópoles onde, cada uma a sua maneira regional/cultural, os desafios da vida urbana se apresentam de forma parecida.

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