George Whitman

A primeira vez que ouvi falar da livraria Shakespeare and Company foi quando ganhei “Um livro por dia”, do canadense Jeremy Mercer. Minha irmã me mandou por correio, presente de Natal ou aniversário. Eu já tinha estado em Paris mais de uma vez, mas nunca soubera da existência da livraria até então. E foi exatamente na mesma época em que visitei, com minha irmã e pela primeira vez, a livraria City Lights, em São Francisco. Não sabia que se tratavam de livrarias irmãs. Que Lawrence Ferlinghetti, mecenas incontornável dos meus adorados beats e fundador da City Lights, havia sido hóspede da S&Co., de George Whitman.

Hoje, 14 de dezembro, faz um ano que George morreu. Está enterrado no Cemitério de Père Lachaise. E se estivesse vivo, teria completado 99 anos anteontem, no dia 12 de dezembro. Generoso, excêntrico, visionário, mal-humorado, rigoroso e amado, ele deixou um legado de pessoas, histórias, livros e inspiração. Em qualquer dia do ano, a qualquer hora do dia, dezenas de visitantes, turistas e admiradores rondam a livraria deste americano que se estabeleceu em Paris nos anos 1950 e por lá ficou. Muitos tiram fotos; alguns compram um exemplar carimbado com o selo legendário. Até roubam. Garotos de veludo cotelê aspirantes a dândi fazem cara de intelectuais entre as estantes e fumam cigarrinhos de enrolar no banco em frente. Bandas se apresentam na porta da livraria; festivais de literatura acontecem ali na calçada todos os verões e o estabelecimento empilhado de livros de forma desordenada abre todos os dias até às 23h. Os funcionários são todos tumbleweeds, escritores-residentes seminômades.

Devorei o livro de Mercer, que conta um pouco da história de fundação até o presente, e nesta época iniciei um novo ciclo de fantasias na minha vida. Poucas coisas são tão prazerosas como receber de presente um novo pacote de sonhos. É como se apaixonar por alguém. E eu passei a sonhar em morar entre as estantes empoeiradas da livraria. Virar a favorita de Whitman. Ler um livro por dia. E escrever dentro do cubículo do escritor, um pequeno compartimento com uma máquina de escrever, uma cadeira e um cinzeiro. Não me lembro exatamente da primeira vez em que fui à livraria, é curioso. Mas me lembro com nitidez do dia em que minha vida se ligou à dela.

Eu estava levando meu melhor amigo para conhecer aquele paraíso com cheiro de guardado. Era um dia curto e cinza de dezembro, perto do réveillon. Alguém tocava piano na sala de cima onde as camas, durante o dia, viram pousos para os leitores visitantes. Sobre a porta, o mote e epitáfio daquele templo nos recebia: “Be not inhospitable to strangers, lest they be angels in disguise” (“Não seja inóspito com estranhos sob pena de serem anjos disfarçados”, em tradução aproximada). E entre as paredes estreitas que afunilam-se dos lados da escada íngreme – entre anúncios de tradutores, redatores, apartamentos pra alugar, baby-sitters bilíngues e aulas de inglês – uma folha ofício pregada dizia “Ateliê de Escritores, todas as terças, às 19h, inscrições por email”. Arranquei a folha pra mim.

Frequentei o ateliê por quase dois anos. Todas as terças à noite. Perdi uma ou duas sessões apenas. Descia de bicicleta de casa até lá, mesmo no frio alfinetante de fevereiro. O grupo tinha sempre entre 10 e 15 pessoas, e uma inglesa (e hoje amiga) nos coordenava, mediando o bando de escritores. A maioria amadores; raros com publicações. Poucos, como eu, eram assíduos. Encadeavam um pacote de dois meses atrás do outro. A maioria vinha uma só vez. Muitos intercambistas, passantes, gente que estava ali só por uma temporada, curiosos e outros tantos perdidos. Paris está sempre repleta destes. O público da livraria, desavisado, subia regularmente ao quarto de estudos onde nos reuníamos, sem saber do que se tratava. Assistiam-nos, ouviam-nos.

Paredes de livros nos rodeavam em frente ao Sena, do chão torto ao teto baixo com vigas de madeira. A parede desnivelada. A janela fria voltada para a Catedral de Notre Dame, logo ali do outro lado do rio, gelada e sem vedação. O vento de inverno passava fininho e cortante pela fresta. Sempre me sentava ali, no parapeito desta janela, escrevendo sobre uma mesa cujo pé quebrado foi substituído por uma pilha de livros grossos e de capa dura. De um lado meu, um banco comprido onde quase dez pessoas se espremiam, pernas contra pernas, bloquinhos e canetas à mão. Na minha frente, outro banco, só que menor. E do meu outro lado, duas grandes poltronas na frente da porta que dá acesso ao corredor privado do prédio 37 rue de la Bûcherie.

Por ali acessava-se o quarto de George Whitman. Nunca o vi na livraria, mas sabia que estava do outro lado daquela porta. Certa vez usei o banheiro de seu aposento, mas ele não estava. E nos raros dias em que a livraria não estava aberta até tarde, subíamos por essa lateral. No interfone, lia-se “Whitman” ao lado de “Antiquarium”, o anexo da loja com obras raras e, à noite, suíte presidencial de um tumbleweed afortunado. Meu coração acelerava um pouquinho. Toda vez. Era a antecipação de cruzar com ele na escada. Mas nunca o vi lá. Já estava bem velhinho nessa época, não fazia mais chá e panquecas de café da manhã pra quem aparecesse no domingo. Sua filha, sim. Passava algumas vezes. Tem a mesma idade que eu. E nos deixava usar o espaço gratuitamente. Sempre foi assim.

As regras do ateliê eram poucas e claras. Escrever. Mexer no texto. Ler em voz alta. Criticar e receber críticas. Tornamo-nos amigos. Compartilhar textos é sempre um ato íntimo, pessoal. E aprendi sobre meus colegas de maneira lenta e progressiva. Conto por conto. Uma australiana. Duas americanas. Uma chilena. Um escocês. Um galês. Tantas histórias. No início desse ano de 2012, nossos contos foram publicados numa antologia de autores do ateliê intitulada “Vignettes & Postcards”. Perdi o lançamento, mas penso na S&Co. com religiosidade e afeto. No cheiro de livro com madeira. Na vista para Notre Dame. Nos amigos e confidências. No que aquilo foi na vida de todos nós, no que ainda é. Faço parte de uma história da qual me orgulho.

Hoje, portanto, agradeço, de longe, à generosidade deste comparsa sagitariano. À de sua família. À importância inestimável que todos ali tiveram na minha vida. E a conquista mais valiosa, que levarei comigo, é a descoberta de que deveria escrever. De que não poderia não escrever. De achar um fim pra esse tormento. Assumir isso pra mim foi um parto. Demorou. Doeu. Confundiu. Levou a lágrimas e alguns porres. Mas, por fim, aliviou. No meu último dia de ateliê, um dia apenas antes de retornar ao Brasil definitivamente, chorei pela despedida e pelo presente que foi aquele lugar, aquela experiência. Mas, sobretudo, porque não era mais a mesma pessoa. E tudo porque George decidiu confiar em estranhos.

 

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A estrada de cada um

Sexta-feira, 13 de julho, fui à estreia de On the Road (Na estrada), de Walter Salles, no Brasil, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional ali na boca da Av. Paulista. Me antecipei, fiquei ansiosa, comprei ingressos online com lugar marcado bem no meio da sala e convidei amigos com entusiasmo. Para além dos 55 anos decorridos desde o lançamento do livro de Jack Kerouac, em 1957, havia os meus de espera desde que o li pela primeira vez, em 2000, aos 18 anos. Ali peguei carona.

Minhas expectativas eram bem baixas. Não esperava chegar a parte alguma. Com todo o respeito e admiração que tenho por Salles e sua trajetória de filmes de estrada, ainda assim esperava pelo pior. Só que o pior não ocorreu. Nem o melhor. Simplesmente foi. E foi demais. Meu tio uma vez disse que no cinema francês os filmes não acabam, eles só param de passar. Assistimos a um fragmento de vida e pronto. Acabou o filme, mas aquela história continua fora das telas. Foi isso o que eu vi no cinema na sexta. Foi o que eu li no livro há mais de uma década.

E não é assim mesmo que ocorre na nossa vida? Momentos épicos, sem dúvida, permeiam o cotidiano, mas falta o final redentor com música incidental de cordas. A narrativa está sempre em construção até a hora em que cessa. O que dá pra fazer é contar um pedacinho numa coluna como essa, num livro, num diário de viagens, numa obra, numa carta. A vida sempre transborda, não cabe nas linhas, nas páginas e muito menos nas telas. E as obras de calibre são assim: quando falta algo, quando incomoda o buraco, é porque o autor acertou. Dá vontade de ler/ver de novo, ver se algo mais vai se revelar na segunda sentada. E sempre revela, mas nunca conclui.

On the Road corre como uma viagem, com altos e baixos que independem dos aclives e declives, e na maior parte do tempo segue a linha amarela no meio da pista: que não leva a parte alguma e é o único caminho. Cito Lewis Carroll: “If the destination is unknown, any road will take you there” ( Se desconhecemos o destino, qualquer estrada te leva a ele). Adiante, o livro vai. As páginas são passadas encadeadas por uma escrita solta e rítmica que pede cadência. Não há clímax, nem obstáculo definido a ser superado pelo herói. Há um sonho e uma pulsão, de vida e de morte. Como a batida à máquina de Kerouac e sua escrita sem respiro, é errático, de improviso e sem refrão, como o jazz.

Não ouso dizer que o filme de Walter Salles seja tão bom quanto o livro, e tampouco tenho peito para encarar a afirmação de que On the Road seja um livro para todos, universalmente incrível. Ele pode nem ser o melhor de Kerouac, mas é a porta. A primeira viagem. É lento e estranho, e cheio de entranhas na escrita. Li e reli seus livros, como também os de Ginsberg, Burroughs, Cassidy, Ferlinghetti e outros beats. Fiquei obcecada por um tempo. Queria ser parte da patota. Queria aquela liberdade, aquela vontade de viver, aquela sede de experiências e ausência de censura. Queria viver jazz, viajar a América, ler, amar, beber e fumar. Viver poesia.

Fecha o livro. Sobem os créditos. Os beats se foram e aquela estrada, para eles, também chegou ao fim.

Tive um professor durante o mestrado que uma vez disse em sala que se você começa um livro e não consegue ir adiante, ou é porque você não o merece ou porque ele não te merece.  Guardo essas palavras comigo, embora ache sempre muito difícil distinguir quem desmerece quem na hora do rala-e-rola. As viagens também são desta natureza: há quem viaje sem sair do lugar e quem nunca saia do lugar, mesmo percorrendo o mundo.

Eu e On the Road nos cativamos, nos merecemos, e a linha amarela que me guia no centro da pista leva a um destino desconhecido. Cada um tem a estrada que merece e a carona que te leva por ela. É só seguir.

1a edição paperback de On the Road publicada pela Viking Press em 1957