Pelo direito a não ter carreira alguma


“Carreiras são uma invenção do século 20, e eu não quero uma”. Quando li essa frase, conclui no ato: nem eu! Um dos primeiros pânicos que tive, ainda bem nova, ao me projetar adulta era justamente esse: como é que eu vou conseguir trabalhar a vida toda fazendo a mesma coisa? Tinha calafrios noturnos com a ideia. Isso muito antes de ler a frase acima no livro de Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem. Muito antes de saber que não era preciso fazer todo dia a mesma coisa pra ser um adulto. Se soubesse então que carreiras são uma invenção recente, teria me concentrado em sofrer apenas com os outros dois desse trio de terrores do reino assombrado da “maturidade”: 1) acordar cedo todo dia; 2) e ter que virar esposa e mãe. Me sentia completamente inapta pra todos eles.

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Madonna e Niemeyer

Já ouvi dizer que pessoas em cargo de mais responsabilidade e confiança ou de maior projeção profissional tendem a viver mais. Que o trabalho por ser feito mantém as pessoas vivas por mais tempo. Que o compromisso tira o pé da cova. Faz sentido, suponho. E sempre pensei isso do velho Oscar. Esse sagitariano danado que no dia 15 teria completado 105 anos, uns 90 deles de tabagismo intenso e convicto. Penso num senso de dever, e talvez até de missão, que impulsiona pessoas como ele. E, ciente do risco de ser apedrejada em praça pública, proponho uma associação arriscada entre duas figuras icônicas: Madonna e Niemeyer.

Creio que Madonna também viverá uma vida longa e ativa. Que depois da turnê acústica que quem sabe virá mais pra frente, ela vai passar para outras formas de criação (apostaria no cinema), mas não parar. Porque parar, realmente, seria o fim. E acho que com ela, como com Oscar, é o fim que os detém, não o contrário. Sim, vaidade é fundamental. A humildade não te faz levantar todos os dias e seguir sendo Madonna ou Niemeyer. Daí o risco que vem embutido neste senso messiânico. Leva a abusos, delírios de grandeza. E, não raro, à loucura.

Anos atrás li uma matéria, na Folha se não me engano, em que vários arquitetos renomados falavam sobre o ofício. Um deles, não me lembro mais qual, disse que o sonho de todo e qualquer arquiteto é, uma vez na vida, produzir uma grande obra. Atingir o sublime. E que ser contemporâneo de Niemeyer tinha sua dose de dor e de delícia. A inspiração e a opressão de um gênio que fez de suas obras, todas elas, primas. E ser contemporânea de Madonna não tem, igualmente, um sabor agridoce? Cito o jornalista Rodrigo Levino: “Quem tiver acompanhado a vinda recente de toda a nova geração de cantoras pop ao Brasil (Britney Spears, Christina Aguilera, Rihanna, Lady Gaga, Katy Perry), não deixará de constatar o óbvio: no dia em que o trono de Madonna vagar, vago continuará.” Para quem não gosta dela, a americana deve ser um rochedo no sapato. Madonna não larga o osso. E se nem Cristo foi unanimidade, como se diz por aí, tampouco foi o simpático e comunista Niemeyer.

De um lado, ela. Dentre suas súditas praticantes – ou seja, todas as performers femininas que vieram depois dela –, quantas duraram? Seu pioneirismo é incontestável. E 30 anos de carreira, sem perder o penteado, não são para qualquer um. Tem que ter a cabeça no lugar. Olhe aí no passado e no presente. Grandes homens e mulheres em potencial. A maioria amarela no meio do jogo e não volta para o segundo tempo. Morrem, piram, não aguentam o rojão. E conta-se nos dedos de uma única mão quem atingiu uma carreira desta solidez. Quem tem, em todos os discos, pelo menos uma ou duas músicas que ficam. Com certeza os Rolling Stones são dessa pequena elite.

De outro lado, ele. Entre arquitetos e estudantes de arquitetura que conheço, encontro críticas, reprimendas, desgostos com suas curvas e blocos soviéticos. Um argumento que eu respeito e tento entender, mas que muitas vezes me parece mais uma justificativa racional – a política por trás daquela cidade de Brasília, linda e estranha – que uma reação visceral a uma obra. E como eu acredito que arquitetura é a forma de arte mais interessante de se ver e de maior impacto sobre nosso cotidiano, prefiro a via irracional.

As artes são um pouco como o olfato. Antes de você reconhecer o aroma no ar, ele já te provocou alguma reação. Atração, repulsa, familiaridade. A arquitetura chega até você a despeito de sua permissão e de sua vontade. Apesar da política. A música tem a mesma natureza no campo sonoro. E ainda bem que é assim. Desconfio que se você for a um show da Madonna aberto à experiência que ela tem a intenção de te proporcionar, se não ficar emburrado com o playback e não for buscando uma coisa preconcebida, você vai com certeza se divertir. Porque é o que é. Um espetáculo. Não é Ramones ou The Stooges. E dentro de sua proposta, ela é a melhor. Como Oscar.

Recentemente voltei a Brasília e o encantamento perdura. E no último dia 5 fui ao show dela no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Aguardando o início sob chuva, recebi uma mensagem no celular. “Agora o mundo realmente acaba… Niemeyer morreu.” Soltei um “Ah” de lamento em voz alta e as luzes se apagaram, fãs urraram e o show, três horas atrasado, começou com o soar de sinos e o balançar de um incensário gigante. Monges ergueram-se no palco, uma catedral de espelhos estilhaçou-se e ela, à la madonna, desceu do confessionário.

Durante esse prelúdio sacro, pensei no Oscar. Fiz meu minuto de silêncio. Admirei a diligência. A abnegação de outra vida. A aceitação de uma escolha, ou até da falta dela. O toque do divino, ou não. O trabalho exaustivo. A vida pessoal prejudicada. O amor pelo ofício. A preocupação com seu público. Lembrei de tudo dele que eu conhecia, suas obras. Tudo isso que vale para Oscar, vale para Madonna. Os dois são farinha do mesmo saco. Inquietos. E, para mim, a abertura deste show da turnê MDNA foi o réquiem do arquiteto. Me achei com sorte. Dessa eu não me esqueço.