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Summer Delight is a multimedia installation that dialogues with concepts of time, space, storytelling and randomness through still and moving images and sounds. Six flat screens display, in arbitrary order, a series of images at random time lapses. The text is divided in 16 pieces that are randomly narrated, through the central 5.1 channels sound system, interposed with moments of silence. Other four stereo sound systems are disposed in the same occupied space, playing the background sounds (internal and external), creating an immersive atmosphere for the narrative.

You can see here a linear video version of the installation and also the still frames and the text.

Summer Delight foi concebido como uma instalação multimídia de imersão, onde o diálogo entre tempo, espaço, movimento e aleatoriedade acentuam a experiência narrativa do espectador. Adaptado do conto “Don and Dean’s Summer Delight”, de Maria Bitarello, este trabalho pretende explorar os limites entre a narrativa literária e sua representação audiovisual. Em uma sala escura 6 telas planas dispostas na sala mostram, em ordem aleatória, uma serie de imagens de duração variada. O texto foi editado em 16 partes independentes que são narradas de forma randômicas através de um sistema de som central 5.1, intercalados com momentos de silencia. Outros 4 sistemas de som estéreo são instalados no mesmo espaço, tocando os sons ambientes e criando assim uma atmosfera imersiva para a narrativa.

O vídeo linear apresentado aqui é um dos desdobramentos desta pesquisa que busca as relações entre texto e imagem.

Project: Vinicius Berger
Story and Narration: Maria Bitarello
Assistant: Fábio Nascimento

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Coragem e colhões

No dia em que contei a meu grande amigo e diretor de cinema, José Sette, que eu tinha conseguido meu primeiro emprego como jornalista ele reagiu com pesar. “Perdi você para essa merda do jornalismo”, foram suas únicas palavras. O Zé foi o primeiro cineasta com quem trabalhei. Comecei no segundo período da faculdade como assistente de produção de um curta-metragem seu e conclui a parceria com a direção de produção, assistência de direção, braço direito e esquerdo e assessoria espiritual de seu longa-metragem, Labirinto de Pedra, no final da faculdade. A gente costumava sentar ao fim do dia pra conversar sobre as próximas gravações ou discutir uma locação.

As horas voavam, eram mágicas. A atenção que ele me cedia, inestimável. Entre muitos cigarros, ele prolongava as sílabas das palavras mais langorosas ao contar do exílio, fazia perguntas desconcertantes para introduzir um manifesto do cinema marginal, maldizia com superlativos o cinema atual em nome do Glauber, se emocionava com o expressionismo alemão e me cortejava com aulas teóricas sobre películas, formatos e sensibilidades de filme. Foram horas passadas em seu ateliê, entre seus filmes, câmeras, livros e quadros. Horas que agora repousam, com louvor, no alto da estante de memórias que mais estimo.

Hoje é Dia do Artista e pensei no Zé, que não vejo há anos. A lembrança me levou, com carinho, a outros artistas que povoam minha vida e até meu cotidiano. Minha fantasia de infância era viver um mundo de arte e criação, de ideias e experiências. Não sabia, então, a extensão dessa vontade, que me levaria a casar com um deles. Naquela época, eu desconfiava, mas não sabia, que a gente não escolhe se vai ser artista – é ela, a vida bandida, que nos cutuca, por trás, e no escuro. Falta de vocação ou de coragem, fico desde sempre a margeá-la, sem pular na piscina. Me contagio, me impregno e até me surpreendo quando me encontro na criação do outro. Numa música, numa foto, num quadro, num capítulo ou personagem.

Meu grande amigo escritor pulou. Ele tem o livro pronto na cabeça antes de escrever. Como? Não sei. Fica tudo ali, frases, diálogos, passagens, episódios; todos eles alinhados, com numerologia e etimologia consideradas, esperando a caminhada ao redor da praça pra decidir em que capítulo – ainda não escrito – morre o protagonista. Não consegue parar. Não pode evitar. Cria, recria e fantasia tudo. Sonha em não fazê-lo. Em viver sem criar uma história. Ainda não conseguiu e, enquanto isso, esse sonho também vira uma história.

Outro que não teve escolha foi um amigo e músico francês. Esse me assusta. Vê-lo compor é um verbo no presente: tudo ocorre enquanto o almoço fica pronto, o telefone toca e ele brinca com o violão entre duas tragadas no cigarro. Simplesmente sai. Derrama. Diferente de um amigo músico brasileiro. Com ele não é natural. Não sai fácil. Sai estranho. Sai espremido. E numa tarde de conversa jogada fora ao sofá ele me diz que para sair dez músicas que prestam, só mesmo jogando fora outras 60. “Quando você começa a compor, a primeira coisa que vem é o clichê. Aí você deixa vir o que tem que vir. Gasta esse clichê, até chegar em outra coisa, em algo melhor.” Stanley Kubrick também achava isso. Que o melhor vem do cansaço. Quando paramos de tentar demais. Quantos takes são necessários para isso? Trinta, quarenta? Não importa. Tudo o que vem antes é preparação para o take perfeito. Rascunhos. Faixas descartadas.

Acho tudo isso fascinante, como é para cada um deles. E penso no Truffaut, que tem uma frase muito boa. Ele nos diz para que “nunca esqueçamos que as ideias são menos interessantes que os seres humanos que as criam, modificam”. Sorte ou sina, tenho muitos artistas ao meu redor. E a convivência nem sempre é suave. Tampouco acho que seja do gosto de muita gente. Quando só temos contato com a obra, e não com o autor, não precisamos conviver nem amar a pessoa privada pra admirar a pessoa pública.

Mas lidar com os artistas, diretamente, é uma experiência distinta. Às vezes a vaidade é quase infantil. Também acontece de serem monotemáticos, obsessivos, até chatos. Muita gente se ofende e entendia mais do que se encanta. A ironia e o sarcasmo podem ser ácidos demais. O julgamento, exaustivo. A necessidade do aplauso, enfadonha. Entendo tudo isso, mas ainda acho que vale a pena. Criar é um tormento que deixa marcas, e a admiração que elas inspiram anda lado-a-lado com a repulsa. É preciso colhões, paciência e, sim, autoconfiança para assistir ao parto prolongado da obra até o fim e não ser arrastado para a lama quando o outro se atola. Mas para quem aguentar, eu prometo que vale a viagem. Vale por aqueles momentos – efêmeros, é claro – em que vemos o mundo com eles.

Tive uma queda pelo Nietzsche na época da faculdade. “Só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente”, li e fiquei de quatro, no ato. Queria ter conhecido o cara. Conversado com ele. Passado horas em sua companhia, como fiz com o Zé e ainda faço com tantos outros. Meu professor e mentor percebeu o fascínio e lançou o desafio: “Queria ver quem aqui conseguia ser amigo de um cara desses lá na época em que ele estava escrevendo essas loucuras aqui. Vocês sabem onde ele chegou pra escrever isso?”. Eu não sabia, mas estava disposta a descobrir. “Eu. Eu seria amiga dele”, dizia a mim mesma, desafiando com os olhos.

Acabei descobrindo muitos lugares sombrios da criação, e tantas vezes passei por eles de mãos dadas. Não tive escolha: quem me pedia a mão era o artista, o amigo, o amante. Não neguei. Pulei. Dei a volta pelo caminho mais longo, mas acabei, eu também, dentro da piscina. Acho que o Zé ficaria satisfeito com a jornalista que me tornei. Que não teve coragem, mas teve colhões.

Vamos falar sobre o elefante

Quando me mudei com minha família para o Colorado, em novembro de 1998, meu padastro americano foi antes para encontrar uma casa e uma escola. Em função da necessidade de proximidade entre escolas e endereços, acabou escolhendo a opção mais próxima da Green Mountain High School, onde estudei até julho de 1999. Esta casa eliminou a possibilidade de eu estudar em outra, igualmente boa e do mesmo condado de Jefferson: Columbine High School.

Com as manchetes do absurdo recentemente estampando as capas de revistas e os cabelos vermelhos do “coringa” decorando de longe as bancas de jornais, voltei a pensar no Colorado, em Columbine, em Eric Harris e Dylan Klebold e em Elefante, de Gus Van Sant, um dos filmes de maior beleza plástica que eu já vi. Me fez pensar na minha experiência do inexplicável e da adolescência.

Na minha família, dia 20 de abril é uma data comemorativa. É o aniversário de namoro da minha mãe e do meu padastro, que no ano que vem comemoram 20 anos de união. Foi o dia em que eles se conheceram e se apaixonaram, em um bar em Washington D.C., o célebre (pelo menos lá em casa) Café Lautrec. Em 1993, a data caiu numa terça. Minha mãe não me deixa esquecer. Em 1999, dia 20 de abril também caiu numa terça, e não preciso que ninguém me lembre. Eu tinha 16 anos e fiquei trancada na escola durante o tiroteio em Columbine, a poucos quilômetros dali. Outros adolescentes ao meu redor se calaram, como eu, e olharam a TV, mudos. Muitos choraram. Os professores não tiveram o que dizer. A diretoria nos mandou permanecer na escola até entenderem o que acontecia. Nesse dia, minha mãe foi me buscar, quando as portas foram abertas. Ela nem sabia o que tinha acontecido.

O Colorado é considerado um dos estados mais saudáveis dos Estados Unidos, já foi o mais visitado pelos americanos e Denver é uma cidade de porte médio e mentalidade de cidade pequena. Em português correto, é caipira. Espalhada no altiplano e margeada pelas Montanhas Rochosas, a Mile High City (cidade a uma milha de altitude, em tradução livre) está ao lado de muitas estações de esqui, tem inúmeras atividades esportivas o ano todo – do hóquei ao caiaque – e um clima espetacular quase todos os dias. Tem mais carros que habitantes e um sistema de transportes públicos ineficiente. E muitos adolescentes entediados.

O tédio. Leva à criação artística, à inovação tecnológica, a uma imaginação fértil e a formas de lazer impensadas (como meus amigos de Recreio, no interior de Minas Gerais, que empurravam vacas adormecidas no pasto. Para quem não sabe – como eu não sabia – as vacas dormem de pé). Às vezes leva também a pequenos delitos e a excessos. Matt Stone e Trey Parker, criadores de South Park, lamentaram, em um depoimento no documentário de Michael Moore, Bowling for Columbine, a impotência diante do que houve em Columbine. Este mesmo mundo escolar que, aos 16 anos, é a totalidade do universo, não é, no conjunto da obra, mais que um capítulo. Passa-se a página e recombinam-se as palavras.

Contrário ao fluxo turístico, o Colorado tem uma tradição de evasão. O espaço amplo e as montanhas ao infinito sob o céu estonteantemente azul podem ser um claustro. E escapar vira o objetivo de muitos. É a terra do John Fante, um dos que escapou. Original de Boulder, o filho de imigrantes italianos foi tentar a vida de roteirista em Hollywood. Emigrou das montanhas para o mar e viveu pobremente em Bunker Hill, no centro de Los Angeles, de onde escreveu seu mais famoso livro, Pergunte ao pó. Ele não deu propriamente certo no cinema, mas escreveu livros sobre sua condição de escritor, de miserável, de interiorano na capital. Nesta mesma época, um pequeno Neal Cassidy ia crescendo, na marra, nas ruas da cidade. Ele também deu o fora, é claro, e veio a se tornar célebre pela pluma de Jack Kerouac ao inspirar o personagem Dean Moriarty (ver última coluna A estrada de cada um).

Em Denver, como em toda parte, adolescentes buscam vida nas festas, nas drogas, nos carros em alta velocidade e no sexo. Limites. Excessos. Brincadeiras. The road of excess leads to the palace of wisdom, exalta William Blake (A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria), mas há quem pereça no caminho. As drogas circulavam de forma pouco discreta na minha escola, uma das boas da região. Os tipos que circulavam nessa mesma escola variavam dos grupinhos mais óbvios dos jocks (os atletas), roqueiros, góticos, nerds e intercambistas aos mais solitários, como a garota da minha aula de História, que todos os dias ia vestida de renda branca e longa. “A noiva”.

Me sentia careta nesse ambiente, e às vezes acuada, apesar de ser, eu também, vítima do tédio suburbano num corpo adolescente. Ouvia muita música pesada, tinha momentos de ira, de fantasia escapista, de desejo de revolução. Exorcizei meus demônios praticando muito esporte, lendo famigeradamente e tocando violão e guitarra por horas. Também tirei carteira de motorista e adorava ficar no sol. E aí passou… O tempo. E também as angústias de então. Às vezes, no entanto, a pressa é grande, e ao invés das fissuras, toma-se o abismo. Porque a adolescência grita, não cabe no peito.

O atentado no cinema de Aurora, subúrbio de Denver, também foi num dia 20, só que de julho, e o “coringa”, bestificado, que chegou a seus 24 anos, pode ser condenado à morte.  A maioria de nós vai se esquecer de que foi numa sexta-feira que isso ocorreu, mas o elefante agora já se instalou na sala de estar. Vez por outra, como agora, vamos revisitar o incômodo e ser lembrados, não sem resistência, de que ele não se foi com a condenação do culpado. E parte da vida é aprender a viver em sua companhia.

Cena do filme “Elefante”, de Gus Van Sant
(Palma de Ouro em Cannes, em 2003)