O que eu (não) sei sobre Ulisses

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Nunca li Ulisses. Confesso que nem tenho vontade. Tampouco li Ilíada, nem Odisseia. Não sei muito sobre esses personagens que partilham o nome Ulisses. Mas batizada, eu também, com um nome que carrega histórias e personagens – Maria, há tantas –, entendi logo o fardo que carregava aquele garoto de 18 anos que conheci na faculdade. Talvez os nomes tenham sido o primeiro passo em nossa dança de aproximação e amizade. Será que se tivéssemos outros nomes seríamos amigos há 15 anos? Não saberemos, mas fica aberto o espaço à divagação, à fantasia, caldo e alimento do escritor – nosso ofício, meu e dele – e amálgama da maioria das nossas conversas ao longo dos anos. E, eu viria a saber mais pra frente, os nomes, na vida e na obra do Ulisses, jamais prescindem de valor e subtexto.

Em nossos primeiros meses de convivência e alto potencial de aproximação feliz, Ulisses me fez uma proposta e um convite que eu aceitei: confiou, a mim, um segredo. Eu não sabia na época, mas confiar a alguém algo seu, algo íntimo, é a maneira mais certa de ganhar sua lealdade. Guardei-o comigo, com mais zelo do que se fosse meu. Ulisses, que é muito mais inteligente do que eu, um mestre das paixões humanas, já sabia que eu o guardaria. E viramos amigos. Irmãos. Confidentes. Parceiros. Almas gêmeas. E, anos mais tarde, também colegas de o(fí)cio. Minha trajetória de escritora é intrinsicamente ligada e indissociável de minha amizade com Ulisses. Ele encadernou, organizou, prefaciou, revisou e editou meus primeiros textos, todos eles. Montou-os em edições caseiras, me mostrou que eu já escrevia, que o ofício já estava lá. E quando meu livro nasceu, foi ele quem fez o parto.

Não há orgulho em ser assim. Escritor. Há conformação. Durante os anos, me lembro de não poucos momentos em que decidimos, ambos, parar de escrever. Hoje rio sozinha lembrando disso. Não éramos acometidos ao mesmo tempo por esse mal estar, ainda bem. Quando um ficava estremecido, o outro estava ali pra dar uma escorada. Sempre tivemos uma facilidade muito evidente pra entrar em conversas de cunho estritamente estético. E a velocidade com que passamos a embarcar nessa tangente de assuntos foi se aprimorando com o tempo. Já há 8 anos não residimos na mesma cidade; metade desse tempo, sequer no mesmo país. Fomos afiando nossa navalha da intimidade argumentativa nas janelas de oportunidade que apareciam. Revelações íntimas e detalhadas foram compartilhadas em trajetos de 20 minutos, da rodoviária à casa, algumas dezenas de vezes. Conversas ao portão. Sentados no meio fio. Deitados à tarde, olhando pro teto, ignorando as chamadas (de celular) do mundo lá fora, externo a nossa bolha e, portanto, fora de nossa prioridade (e sobretudo de nosso interesse).

Somos muito diferentes, porém estranhamente complementares. Não brigamos, embora discordemos com frequência. Respeitamos o sono e as vontades do outro. Passamos horas em silêncio confortável. Dançamos. Cantamos. Comemos. Lemos juntos. E rimos muito, sempre. Geramos ciúmes, com certeza, mas prefiro acreditar que incitamos ainda mais admiração. Afinal, amizades como a nossa são pequenos tesouros, e não sobrevivem por vontade divina. Perduram e resistem por uma mistura de cuidado, carinho e respeito de ambas as partes. E também por um certo elemento, imprescindível, de ausência de esforço. A palavra em inglês é effortless. O que sempre nos ajudou, indiretamente, a não cair no drama. Juntos fomos tentando, e na maior parte do tempo conseguindo, transitar da tragédia à comédia sem escala pelo drama. No fim, a diferença entre as duas é apenas temporal. Passado certo tempo, toda tragédia vira comédia. E Ulisses domina, com maestria, esse timing. Ninguém o ensinou isso. Veio com ele. Suspeito que herdado da mãe.

Feito esse preâmbulo, volto-me a Homo Sapiens Erectus. Esse é o décimo livro do Ulisses. Eu o li, e todos os anteriores também, no manuscrito, na versão caseira, rascunhada, aquela que a gente nunca vê dos nossos autores favoritos. Esquecemos de nos lembrar que todo mundo tem rascunhos. E nossos rascunhos, acredite, não são a obra. São o zigoto de uma ideia. Portanto, quando alguém te confia um manuscrito de um livro, aceite-o com pompas. Se não for pra honrá-lo, recuse-o de uma vez. Porque ali está um pedacinho da alma do escritor que lhe é entregue em mãos, encadernada. Tenha em mente que ele pode, sim, valer mais que um segredo. Ser mais íntimo. E essa aposta, esse convite do Ulisses, eu também aceitei. Com gratidão e humildade. Miigwech.

A primeira vez que tive contato com os contos que compõem esse volume já faz 5 anos. Eu morava na França, e o manuscrito que até hoje eu guardo, com meus rabiscos e impressões, me foi enviado por correio. Eu e Ulisses fomos capazes de manter nossa comunicação fraterna e editorial através dessas distâncias transatlânticas, e Homo Sapiens Erectus foi um desses projetos epistolares. Suspeito até que a distância tornou nosso diálogo literário ainda mais rico, como se através da arte, da literatura, nosso amor e vontade de partilhar fossem transmitidos com mais precisão. Direto ao coração. Me dedicava a essas atividades com o afinco de uma apaixonada. De corpo e alma presentes, sentia que o espaço-tempo coincidia. Isso nos manteve ligados com um arco muito mais teso que conversas ao telefone, que raríssimas vezes tivemos. Há muitos anos já havia desistido de conversar ao telefone com o Ulisses. Aprendi cedo que ali não dava jogo. Ele é lacônico e esquisito de fone ao ouvido.

O que vocês têm em mãos, portanto, caro leitor, esse compêndio de histórias e fantasias, é um exercício da vontade, da paciência e da teimosia do autor. São contos que ele vinha escrevendo há mais de 15 anos, desde a adolescência, e cuja publicação vem sendo gestada há mais de cinco. Fantasias vividas, idealizadas, escondidas, teatralizadas, sublimadas, mas nunca ignoradas. Há o belo, o fetiche, o perverso, o infantil. Fantasias que dão tesão, outras que dão medo, e até culpa. E a catarse da escrita, ele aprendeu cedo, cura. Recria. Funciona tanto que há autores que deixem de viver fora do livro, tamanha a satisfação advinda da imersão.

Já contei em uma crônica minha que o método de criação desse meu amigo me intriga. Essa sua forma de processar as ideias, encontrando-as e organizando-as em sua cabeça antes de escrever uma linha sequer. Ele tem um caderninho. Mas as palavras ali não abundam. Às vezes, toda a gênese de um romance – que ele sabe do início ao fim, diálogos inclusos – está contida em uma única palavra, em letras estilizadas e garrafais, com rabiscos circundantes. Tipo um desenho que se faz na última folha do caderno de escola, onde a gente deixa o inconsciente (e o tédio) fluir enquanto fracassamos em prestar atenção na aula. E, pensando bem, é por aí mesmo que a criatividade do Ulisses opera. Como nossa amizade. No acaso distraído. Na atenção flutuante. Na vigília agitada e no sono vespertino.

Um professor meu, no mestrado em literatura, me explicou em aula a diferença entre o autor, o narrador e a voz narrativa. Às vezes, a voz narrativa é a voz do narrador. Outras não. Às vezes, o leitor sabe apenas o que o narrador sabe, outras sabe mais que ele. E de vez em quando, mas com muito menor frequência, o narrador, a voz narrativa e o autor são o mesmo. E mesmo nesses casos, nunca são exatamente o mesmo. Porque até contando a “verdade”, mentimos. E o livro confessional também é uma ficção. O Ulisses gosta da mentira. Regozija-se dela. Refestela-se. Pratica-a em muitos lugares, em muitos tempos. O que não tem nada a ver com falta de honestidade. Aliás, muito pelo contrário – e me aproveito de uma ideia de Dostoyevsky, em Crime e Castigo: é de mentira em mentira que se chega à tal verdade. E Ulisses, que é analista, escritor, professor e contador de histórias, sabe muito bem disso. Acho até que é por isso que ganha a vida contando e ouvindo histórias.

Ofereço aqui, portanto, uma nota de advertência de uma velha marinheira desses mares de Homero: duvide, sempre, do Ulisses, mas não de seus narradores. Aqui, nesse volume, você vai encontrar muitos deles. Cada hora um. Nenhum deles é o autor. Nenhum. Portanto, guarde suas ressalvas para o homem que gerou tantos outros homens e tem horror a ser levado a sério. Se encontrá-lo na rua, no bar, no cinema, desconfie, provoque, cutuque-o. E guarde sua confiança para a duração que tiver sua travessia por essas páginas. O narrador é coisa séria. E aqui, autor, narrador e voz narrativas só se cruzam nas nossas interpretações, nas concatenações do leitor.

Ulisses, caprichoso, me confessou muito cedo ter uma fantasia das mais picantes: sonhava em, um dia, não criar mais histórias em sua cabeça. Aspirava viver uma vida onde as experiências e as fantasias não se transformam em personagens e eventos. Esse, e não tudo que você vai ler nesse livro, foi seu maior fetiche. Não sei se perdura, porque as fantasias também se gastam e desgastam. Afinal, percebemos, com o passar dos anos, que maior covardia não é a vida de escritor – esse ser solitário e esquisito que vive em seu cubículo imaginário, acompanhado de palavras, monstros, sonhos e vaidades. A maior covardia é não escrever. E, em seguida, não publicar. A gente se vê descobre no que escreve. A gente publica pra não viver rodeado de fantasmas e de rascunhos inacabados.

Dito tudo isso, você deve estar se perguntando o que eu não sei sobre o Ulisses. E eu arrisco dizer: mais coisas do que eu suponho. Ulisses preserva mistérios e cultiva segredos. Mas a partir de agora, caro leitor, esse livro que você tem em mãos não é mais um deles. Honre-o.

Prefácio escrito para o livro Homo Sapiens Erectusde Ulisses Belleigoli.

Coragem e colhões

No dia em que contei a meu grande amigo e diretor de cinema, José Sette, que eu tinha conseguido meu primeiro emprego como jornalista ele reagiu com pesar. “Perdi você para essa merda do jornalismo”, foram suas únicas palavras. O Zé foi o primeiro cineasta com quem trabalhei. Comecei no segundo período da faculdade como assistente de produção de um curta-metragem seu e conclui a parceria com a direção de produção, assistência de direção, braço direito e esquerdo e assessoria espiritual de seu longa-metragem, Labirinto de Pedra, no final da faculdade. A gente costumava sentar ao fim do dia pra conversar sobre as próximas gravações ou discutir uma locação.

As horas voavam, eram mágicas. A atenção que ele me cedia, inestimável. Entre muitos cigarros, ele prolongava as sílabas das palavras mais langorosas ao contar do exílio, fazia perguntas desconcertantes para introduzir um manifesto do cinema marginal, maldizia com superlativos o cinema atual em nome do Glauber, se emocionava com o expressionismo alemão e me cortejava com aulas teóricas sobre películas, formatos e sensibilidades de filme. Foram horas passadas em seu ateliê, entre seus filmes, câmeras, livros e quadros. Horas que agora repousam, com louvor, no alto da estante de memórias que mais estimo.

Hoje é Dia do Artista e pensei no Zé, que não vejo há anos. A lembrança me levou, com carinho, a outros artistas que povoam minha vida e até meu cotidiano. Minha fantasia de infância era viver um mundo de arte e criação, de ideias e experiências. Não sabia, então, a extensão dessa vontade, que me levaria a casar com um deles. Naquela época, eu desconfiava, mas não sabia, que a gente não escolhe se vai ser artista – é ela, a vida bandida, que nos cutuca, por trás, e no escuro. Falta de vocação ou de coragem, fico desde sempre a margeá-la, sem pular na piscina. Me contagio, me impregno e até me surpreendo quando me encontro na criação do outro. Numa música, numa foto, num quadro, num capítulo ou personagem.

Meu grande amigo escritor pulou. Ele tem o livro pronto na cabeça antes de escrever. Como? Não sei. Fica tudo ali, frases, diálogos, passagens, episódios; todos eles alinhados, com numerologia e etimologia consideradas, esperando a caminhada ao redor da praça pra decidir em que capítulo – ainda não escrito – morre o protagonista. Não consegue parar. Não pode evitar. Cria, recria e fantasia tudo. Sonha em não fazê-lo. Em viver sem criar uma história. Ainda não conseguiu e, enquanto isso, esse sonho também vira uma história.

Outro que não teve escolha foi um amigo e músico francês. Esse me assusta. Vê-lo compor é um verbo no presente: tudo ocorre enquanto o almoço fica pronto, o telefone toca e ele brinca com o violão entre duas tragadas no cigarro. Simplesmente sai. Derrama. Diferente de um amigo músico brasileiro. Com ele não é natural. Não sai fácil. Sai estranho. Sai espremido. E numa tarde de conversa jogada fora ao sofá ele me diz que para sair dez músicas que prestam, só mesmo jogando fora outras 60. “Quando você começa a compor, a primeira coisa que vem é o clichê. Aí você deixa vir o que tem que vir. Gasta esse clichê, até chegar em outra coisa, em algo melhor.” Stanley Kubrick também achava isso. Que o melhor vem do cansaço. Quando paramos de tentar demais. Quantos takes são necessários para isso? Trinta, quarenta? Não importa. Tudo o que vem antes é preparação para o take perfeito. Rascunhos. Faixas descartadas.

Acho tudo isso fascinante, como é para cada um deles. E penso no Truffaut, que tem uma frase muito boa. Ele nos diz para que “nunca esqueçamos que as ideias são menos interessantes que os seres humanos que as criam, modificam”. Sorte ou sina, tenho muitos artistas ao meu redor. E a convivência nem sempre é suave. Tampouco acho que seja do gosto de muita gente. Quando só temos contato com a obra, e não com o autor, não precisamos conviver nem amar a pessoa privada pra admirar a pessoa pública.

Mas lidar com os artistas, diretamente, é uma experiência distinta. Às vezes a vaidade é quase infantil. Também acontece de serem monotemáticos, obsessivos, até chatos. Muita gente se ofende e entendia mais do que se encanta. A ironia e o sarcasmo podem ser ácidos demais. O julgamento, exaustivo. A necessidade do aplauso, enfadonha. Entendo tudo isso, mas ainda acho que vale a pena. Criar é um tormento que deixa marcas, e a admiração que elas inspiram anda lado-a-lado com a repulsa. É preciso colhões, paciência e, sim, autoconfiança para assistir ao parto prolongado da obra até o fim e não ser arrastado para a lama quando o outro se atola. Mas para quem aguentar, eu prometo que vale a viagem. Vale por aqueles momentos – efêmeros, é claro – em que vemos o mundo com eles.

Tive uma queda pelo Nietzsche na época da faculdade. “Só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente”, li e fiquei de quatro, no ato. Queria ter conhecido o cara. Conversado com ele. Passado horas em sua companhia, como fiz com o Zé e ainda faço com tantos outros. Meu professor e mentor percebeu o fascínio e lançou o desafio: “Queria ver quem aqui conseguia ser amigo de um cara desses lá na época em que ele estava escrevendo essas loucuras aqui. Vocês sabem onde ele chegou pra escrever isso?”. Eu não sabia, mas estava disposta a descobrir. “Eu. Eu seria amiga dele”, dizia a mim mesma, desafiando com os olhos.

Acabei descobrindo muitos lugares sombrios da criação, e tantas vezes passei por eles de mãos dadas. Não tive escolha: quem me pedia a mão era o artista, o amigo, o amante. Não neguei. Pulei. Dei a volta pelo caminho mais longo, mas acabei, eu também, dentro da piscina. Acho que o Zé ficaria satisfeito com a jornalista que me tornei. Que não teve coragem, mas teve colhões.