Dia de Finados

“Você morreu pra mim. Nunca mais quero te ver.” Queima-se cartas, rasga-se fotos, apaga-se mensagens de celular e email, muda-se de amigos. Enterramos o outro em vida. Encerramos um amor ou uma amizade. A paixão adolescente é dramática, e sofrida é a primeira perda. “Como será possível a vida continuar sem você”, esbravejamos, mão contra o peito, “sobretudo porque você está vivo? Sua vida continua, só não é mais comigo.” A dor é muito grande; a incompreensão e frustração, maiores. E delas tiramos aprendizado.

É Finados. Dia dos Mortos. Aqueles que a vida tira de nós. É dia dos vivos lembrarem-se deles. Quando eu era criança, achava a cerimônia de morte demasiado mórbida. Velar o corpo era uma tara que eu não pretendia partilhar. Isso muito antes de entender o luto. E, sobretudo, que trata-se de um ritual para os vivos. Para seguirmos adiante sem arrastar um caixão desajeitado vida afora. Sem assombração nem nada. Porque ao contrário do que nos dizem na infância, a morte não vem apenas no fim. Acontece o tempo todo. Ao nosso redor, dentro de casa. Em nós mesmos. A vida toda.

Proponho, portanto, que hoje lembremos também daqueles que extirpamos da nossa vida sem óbito. Pela separação. Para que nos lembremos mesmo depois que não recordarmos mais os detalhes do rosto. Pois “eliminar os mortos da memória não é possível. O passado está cheio de mortos, mas aqui estou eu a continuar a lhes dar vida. Quem é que se pode separar disso?”. A frase é de José Saramago, que também diz que o passado não passa, acumula. Empilhado sobre o presente. Nesta pilha, enfileiram-se os sepultamentos póstumos e também as mortes em vida.

Gostaria, ainda, de evocar um terceiro tipo de defunto. Da categoria Lance Armstrong. Que não foi tirado de nós e que nós não afastamos voluntariamente. É a História que apaga seu traço; eis sua condenação. O morto-vivo punido com o esquecimento. O ostracismo. Todos os grandes – nos esportes, nas artes, nas ciências – buscam a imortalidade. Sua perpetuação. Tirá-la é uma forma de punição customizada das mais perversas. Falei sobre isso em outro artigo nessa coluna, lembrando “1984”, de George Orwell.

E a primeira coisa em que pensei quando soube do afastamento de Armstrong foi justamente Orwell. “Não estamos mais em guerra com a Eurásia; na verdade, nunca estivemos”. Lobotomia ideológica em “1984”. A cada reviravolta na política, apagam-se os arquivos de jornal. Deleta-se do cotidiano todo e qualquer vestígio. Uma verdade que nunca houvera, da qual se duvida e que aos poucos vira uma mentira.

O ciclista americano vai “sair” da História como o farsante que teve seu mandato esportivo caçado. Não será esquecido por completo, mas, em 100 anos, será um rosto desbotado. Ele, antigo detentor dos impressionantes 7 títulos na Tour de France, em sequência. Com o passar das gerações, seu nome – apagado do panteão do esporte – deixará de ser dito. Seu doping não será usado como exemplo. Uma decisão judicial que hoje custa mais a nós, seu público, sobre quem pesa a incumbência do esquecimento. Forçados por lei a enterrar sua glória.

Sempre dizem que “a vida continua”, mas a vida sempre acaba. É a morte que continua, para sempre. E enquanto estivermos por aqui, levamos nossos mortos conosco, pelas mãos. Há os que, diante disso, prefiram tirar as perdas de vista. Maquiar a ausência onipresente. E há os que prefiram ver para exorcizar. Fitar o corpo. No meio dos dois, com tempo e paciência, existe outro lugar. Onde lembramos para seguir adiante. Onde há dor, não sofrimento. As saudades não passam mesmo. Mas mudam.

Nesse Finados, portanto, penso nos vivos. Pois não há aceitação no esquecimento. Penso em quem recorda. Em quem se separou em vida. Em Lance Armstrong. E se uma criança me perguntar, amanhã, quem foi o ciclista, não vou repreendê-la. Não vou sussurrar baixinho. Muito menos prometer contar a verdade quando ela tiver idade. O americano é um memorial vivo, erguido em praça pública. Não nos deixa esquecer. Nos ajuda a prosseguir de mãos dadas com nossa história, os olhos abertos. Que façamos uso dele.

Jardin du Coq, Clermont-Ferrand, França (2010), by Maria Bitarello

Advertisements

O presente do amanhã

No último final de semana, descobri um hóspede indesejado na minha casa. Um rato, grande, embaixo do tanque de lavar roupas, me deixou uma noite em claro, à espera da manhã e de alguém, um herói. Meu zelador, Roni Von, veio matá-lo, tirá-lo do meu presente. Vi seu corpo morto, cabeça aberta, o sangue. Mas, ainda mais vezes, vi seu corpo vivo, esguio e veloz, sua cauda subindo pela parede. Nosso brevíssimo encontro revivido, incessantemente, na minha cabeça. É minha fantasia dos fatos em plena atividade, distendendo a tormenta no tempo. Espremendo o presente fugaz ali entre o passado, traumatizado, e o futuro, antecipado, lá onde habitam outros ratos que poderei encontrar, que poderão entrar na minha casa, expor a fragilidade do meu abrigo, de mim mesma. O magnífico mundo das possibilidades, do medo sem nome, da antecipação do pior que nunca vem, ou que vem disfarçado.

É o quarto 101. O maior vilão de todos os tempos. O aposento para onde caminha a narrativa de “1984”, de George Orwell. Lá mora nosso maior medo, nossa fobia, nossa forma de tortura singular e customizada. Winston Smith, o protagonista solitário da ficção-científica, escrita em 1948, desce o corredor a caminho de sua loucura. Nem ele poderia conceber, contra si, sadismo tão perverso. Tampouco sabia o tamanho de sua repulsa. A ratos. Uma repulsa bem maior que a minha, com certeza. Até domingo, eu não pensava neles. Não particularmente. Mas a vida é cheia dessas coincidências, e dois dias antes eu havia visto “Cosmópolis”, de David Cronenberg, no cinema.

A ficção se passa em uma Manhattan alegórica da übermetrópole, um cenário de pré-apocalipse. E o filme abre com uma citação sobre roedores: “Um rato tornou-se a unidade monetária”. O fim dos tempos de usurpação. Manifestantes parodiam Occupy Wall Street e invadem restaurantes segurando ratos mortos pela cauda, protestando contra o futuro. “Eles querem adiar o futuro”, é o que explica a Chefe de Teoria do protagonista, “porque ele tomou conta do presente. Quanto mais inovadora uma ideia, mais pessoas ela deixa pra trás”. Cronenberg sugere que o colapso financeiro é incontornável. E o que vem depois é o retorno à moeda de base, não flutuante, aos ratos. Só assim haverá futuro. Um presente lá na frente.

Pois bem. Cronenberg é um cara cismado. Os cenários, episódios e personagens de suas histórias brincam com o mesmo fetiche: a violência. Que, arrisco, deve ser também seu maior medo. Filme após filme, ele exorciza uma parte desta ameaça. A parte nominada. Desenha um círculo ao redor do que viu até ali e diz: isso é violência. Como isso não basta, logo vem outro filme: aqui também é violência. E é um deleite ver alguém perseguir seu objeto de fascínio e repulsa com tanta diligência.

Se é verdade o que diz Caetano Veloso, que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, então todos temos uma surpresinha nos aguardando dentro do quarto 101. E os demônios que Cronenberg encontra ali são irreproduzíveis em seus filmes. O medo em estado puro que não alcançamos. Porque pra escrever, pra falar, pra filmar, nomeamos. Apontamos o dedo, demarcamos o objeto ou a pessoa ou o sentimento. Como peças de museu. Cronenberg batiza seu medo. Seu pesadelo em vigília. Orwell também, sua distopia totalizante. Vivem, ambos, a catarse através da arte. Pra não precisar entrar no quarto de onde ninguém retorna. Pra não precisar matar, roubar, violar. O rato marca o fim e o recomeço. O último estágio do apocalipse. A fissura.

Há pouco tempo um amigo me perguntou por que sempre escrevo sobre memórias, por que volto no passado, falo das perdas. Significo meu presente através da recordação, pensei. A vida é uma sucessão de perdas e de pequenas mortes. E estes sepultamentos nos libertam. Vivemos o luto pra não virar pesar. Fazemos das memórias um presente. Elaborando pra entender, articulando pra prosseguir.

Respondi a meu amigo que não sei falar sobre hoje, sobre o amanhã, porque ainda não deu tempo de entender, de digerir. Porque “a vida é muito contemporânea”, como disse a personagem de Juliette Binoche em “Cosmópolis”. E eu acho que concordo. Não alcanço o presente. Sempre me escapa. Quem sabe não é ele que me aguarda no quarto 101. Nestas histórias, ele vem após os ratos. O meu rato já veio, já emoldurei. Talvez eu esteja próxima, então. E o presente não ficará mais povoado pelo passado, nem apressado pelo futuro. É tempo de criar algo novo.

Carnavalesco na Place de la République, em Paris (fevereiro de 2010), by Maria Bitarello