Madonna e Niemeyer

Já ouvi dizer que pessoas em cargo de mais responsabilidade e confiança ou de maior projeção profissional tendem a viver mais. Que o trabalho por ser feito mantém as pessoas vivas por mais tempo. Que o compromisso tira o pé da cova. Faz sentido, suponho. E sempre pensei isso do velho Oscar. Esse sagitariano danado que no dia 15 teria completado 105 anos, uns 90 deles de tabagismo intenso e convicto. Penso num senso de dever, e talvez até de missão, que impulsiona pessoas como ele. E, ciente do risco de ser apedrejada em praça pública, proponho uma associação arriscada entre duas figuras icônicas: Madonna e Niemeyer.

Creio que Madonna também viverá uma vida longa e ativa. Que depois da turnê acústica que quem sabe virá mais pra frente, ela vai passar para outras formas de criação (apostaria no cinema), mas não parar. Porque parar, realmente, seria o fim. E acho que com ela, como com Oscar, é o fim que os detém, não o contrário. Sim, vaidade é fundamental. A humildade não te faz levantar todos os dias e seguir sendo Madonna ou Niemeyer. Daí o risco que vem embutido neste senso messiânico. Leva a abusos, delírios de grandeza. E, não raro, à loucura.

Anos atrás li uma matéria, na Folha se não me engano, em que vários arquitetos renomados falavam sobre o ofício. Um deles, não me lembro mais qual, disse que o sonho de todo e qualquer arquiteto é, uma vez na vida, produzir uma grande obra. Atingir o sublime. E que ser contemporâneo de Niemeyer tinha sua dose de dor e de delícia. A inspiração e a opressão de um gênio que fez de suas obras, todas elas, primas. E ser contemporânea de Madonna não tem, igualmente, um sabor agridoce? Cito o jornalista Rodrigo Levino: “Quem tiver acompanhado a vinda recente de toda a nova geração de cantoras pop ao Brasil (Britney Spears, Christina Aguilera, Rihanna, Lady Gaga, Katy Perry), não deixará de constatar o óbvio: no dia em que o trono de Madonna vagar, vago continuará.” Para quem não gosta dela, a americana deve ser um rochedo no sapato. Madonna não larga o osso. E se nem Cristo foi unanimidade, como se diz por aí, tampouco foi o simpático e comunista Niemeyer.

De um lado, ela. Dentre suas súditas praticantes – ou seja, todas as performers femininas que vieram depois dela –, quantas duraram? Seu pioneirismo é incontestável. E 30 anos de carreira, sem perder o penteado, não são para qualquer um. Tem que ter a cabeça no lugar. Olhe aí no passado e no presente. Grandes homens e mulheres em potencial. A maioria amarela no meio do jogo e não volta para o segundo tempo. Morrem, piram, não aguentam o rojão. E conta-se nos dedos de uma única mão quem atingiu uma carreira desta solidez. Quem tem, em todos os discos, pelo menos uma ou duas músicas que ficam. Com certeza os Rolling Stones são dessa pequena elite.

De outro lado, ele. Entre arquitetos e estudantes de arquitetura que conheço, encontro críticas, reprimendas, desgostos com suas curvas e blocos soviéticos. Um argumento que eu respeito e tento entender, mas que muitas vezes me parece mais uma justificativa racional – a política por trás daquela cidade de Brasília, linda e estranha – que uma reação visceral a uma obra. E como eu acredito que arquitetura é a forma de arte mais interessante de se ver e de maior impacto sobre nosso cotidiano, prefiro a via irracional.

As artes são um pouco como o olfato. Antes de você reconhecer o aroma no ar, ele já te provocou alguma reação. Atração, repulsa, familiaridade. A arquitetura chega até você a despeito de sua permissão e de sua vontade. Apesar da política. A música tem a mesma natureza no campo sonoro. E ainda bem que é assim. Desconfio que se você for a um show da Madonna aberto à experiência que ela tem a intenção de te proporcionar, se não ficar emburrado com o playback e não for buscando uma coisa preconcebida, você vai com certeza se divertir. Porque é o que é. Um espetáculo. Não é Ramones ou The Stooges. E dentro de sua proposta, ela é a melhor. Como Oscar.

Recentemente voltei a Brasília e o encantamento perdura. E no último dia 5 fui ao show dela no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Aguardando o início sob chuva, recebi uma mensagem no celular. “Agora o mundo realmente acaba… Niemeyer morreu.” Soltei um “Ah” de lamento em voz alta e as luzes se apagaram, fãs urraram e o show, três horas atrasado, começou com o soar de sinos e o balançar de um incensário gigante. Monges ergueram-se no palco, uma catedral de espelhos estilhaçou-se e ela, à la madonna, desceu do confessionário.

Durante esse prelúdio sacro, pensei no Oscar. Fiz meu minuto de silêncio. Admirei a diligência. A abnegação de outra vida. A aceitação de uma escolha, ou até da falta dela. O toque do divino, ou não. O trabalho exaustivo. A vida pessoal prejudicada. O amor pelo ofício. A preocupação com seu público. Lembrei de tudo dele que eu conhecia, suas obras. Tudo isso que vale para Oscar, vale para Madonna. Os dois são farinha do mesmo saco. Inquietos. E, para mim, a abertura deste show da turnê MDNA foi o réquiem do arquiteto. Me achei com sorte. Dessa eu não me esqueço.

A cura pelo próprio mal

De todas as modalidades esportivas em competição olímpica, apenas duas vêm do que eu chamaria de um instinto primário, derivações de duas ações ancestrais, presentes em todas as culturas e de motivação inquestionável para a sobrevivência: correr e lutar. Nem todas as comunidades primitivas viviam perto d’água para desenvolverem a natação ou utilizavam o arco para caçar, mas nunca ouvi falar de um povo que não corresse – atrás de uma presa ou para não o ser ele próprio presa de outra espécie – ou lutasse – para se defender, para conquistar, para seduzir, para oprimir. E os esportes contemporâneos que derivam desses dois gestos primitivos – como o boxe e o atletismo – têm supremacia negra: os negros são, aí, mais presentes e mais bem-sucedidos.

São nessas modalidades que a técnica de treinamento é posterior ao ato primeiro. Correr é instintivo, fez muita gente sobreviver nesse mundo. E reagir a um inimigo também. Luvas, sapatilhas, ringues e pistas são adereços secundários. Mesmo nós, que não somos atletas profissionais, já corremos e ainda correremos. E muitos, mas não todos, já bateram em alguém. O resto já desejou. É o gesto que vem das vísceras. E é justo aí que reside a soberania dos africanos e afrodescendentes. No físico. E se o esporte só pedisse nosso corpo, eu acredito que a seleção natural da espécie eliminaria, gradualmente, os brancos das competições. Sabemos, contudo, que não é o caso. O psicológico no esporte é uma parte tão grande do treinamento que não dá pra nos contentarmos com o argumento étnico ou nacional. A China não nos mostrou que nem os Estados Unidos são imbatíveis? O que sobra, para além das pernas, braços, pulmões e um bom treinamento, é o caráter.

E o caráter é distribuído de forma aleatória e democrática entre os povos. A verdade é que não são muitos o que são bem equipados na cabeça e no coração para lidar com o esporte profissional. Os que ainda conseguem o corte olímpico descobrem lá, na Atenas da vez, não terem estômago para o pódio. Amarelam. A maioria nem vai. E nessa peneira das mais estreitas – uma vez deixados de lado os adereços –, um branco, um asiático, um indígena e um árabe têm as mesmas chances que um negro de atingir grandeza naquilo que fazem. E como é que o fazem?

Acredito que grande parte do sucesso repouse no doce equilíbrio entre autoconfiança e humildade. É, eu sei que é dureza de alcançar, e mais ainda de sustentar. Nessas horas, os primeiros atletas que me vêm à mente são os maratonistas e os tenistas, etnias à parte. A solidão e a tenacidade destes dois atletas é real. Competições de horas em que ambos estão sempre sozinhos, presos em um corpo que grita e queima antes de atingir a dormência. Sempre arriscando uma diminuição na marcha ou na concentração porque os pensamentos tortuosos que podem os levar rapidamente ao fracasso espreitam a cada devaneio, seja pela soberba, seja pela covardia. E não há uma segunda chance.

Admiro bastante os atletas dotados desta rara capacidade de medir e calcular o presente e, a partir dele, dosar, para distribuir com moderação, a energia que resta nos corpos. E nas mentes. Não saltar nos braços da glória na metade da partida nem aceitar a derrota da vontade a meia-maratona. Dosar até a hora de soltar, a hora de chorar. Porque eles passam à beira de uma forma de loucura, e creio que nem saibam bem como fazem para regressar.

Os Jogos Olímpicos há alguns anos me aprisionam no sofá neste período de júbilo sazonal e suas imagens são as que mais me emocionam – não é algo do qual me orgulhe, acho até um pouco patético. Relaxo, com eles, na hora do gozo. O gozo que eles não tiveram muitas outras vezes em anos de preparação, disciplina, dor, alternância entre lesão e recuperação e abdicação quase total de outros tantos gozos de vida: comer, beber, sentir preguiça, procrastinar.

O espírito olímpico me fez voltar às memórias do escritor japonês Haruki Murakami, autor de um número considerável de romances de econômica beleza surrealista. “Do que eu falo quando eu falo de corrida” é uma espécie de autobiografia breve em que ele nos conta suas percepções da corrida e da escrita, hábitos do teimoso. Maratonista há mais de 30 anos, ele, que hoje já passou dos 60, faz paralelos entre as duas práticas que norteiam sua vida: da constância de ambas, do sofrimento prolongado, compensado pelo momento da chegada, e do desejo de isolamento de seus praticantes.

Pensei nele porque não sei de um povo que não conte histórias. Contar histórias é um ato primário dos homens. Escrever é artifício, uma derivação deste instinto, e a técnica vem ajudar na preservação e perpetuação da memória. Em muitas partes do mundo, até hoje, é ao redor do ancião que o conhecimento é passado. Oralmente, por cânticos, sem livros. O papel e o lápis são os adereços secundários que vieram em auxílio do contador de histórias. Depois deles, tudo é terciário.

Conheço alguns escritores, e muita gente que escreve, e a maioria confessa não gostar tanto de escrever quanto de ter escrito. Na escrita e na maratona, existem mais razões para se abandonar do que para prosseguir. Em ambas, os pensamentos de autoadulação e de autocrítica são igualmente nocivos, e as certezas só aparecem em breves janelas de lucidez. No percurso, há mais sofrimento que prazer e mais medo que coragem. Mas sempre vi a coragem como o impulso que nos leva a atravessar o medo, não a negá-lo. A autora Joyce Carol Oates tem uma bela frase em que diz que “the novel is the affliction for which only the novel is the cure” (o romance é o sofrimento que só o romance cura).

Escritores e maratonistas se levantam, todas as manhãs, para fazer tudo de novo. Passada a fase do “levar jeito pra coisa”, só mesmo insistindo, suando, editando e entregando uma parte de si. Uma parte que fica no treino, no rascunho, na obra, no Ouro Olímpico. Uma parte que vai e que às vezes não volta. E onde o esporte vem cobrar com a saúde do corpo – e a barganha é aceita em troca de grandeza –, a escrita leva uma parte da alma. Topa?