A arte de morrer

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Manikarnika Ghat, Varanasi, Índia

Um dos momentos mais importantes em “Bacantes”, na montagem do Teatro Oficina a partir do texto de Eurípedes, é o estraçalhamento do corpo de Penteu. Um ato indissociável da entrega de Penteu a seu fim. De certa forma, é a consumação da tragédia, o ato em que o antagonista compreende e aceita seu papel. A cena é violenta e bela. Desse ritual de morte, todos são convidados a participar. Primeiro, do estraçalhamento, depois, do banquete onde Penteu será comido pelas bacantes, pelos tebanos, por todos nós; o momento da festa. Assim como todos ali presentes, Penteu percebe a situação em que se encontra, reconhece o inescapável – a morte, ali, pelas mãos delas – e abre os braços. Não resiste. Recebe. E morre.

Em dezembro, antes do fim da temporada de “Bacantes”, voltei a Varanasi, na Índia – a mais importante das cidades sagradas hindus e uma das mais antigas do mundo – e me lembrei o quão insípidos são os rituais de morte em muitas culturas.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

The Faces of Varanasi and the Ganga

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Cafe view – Varanasi / India

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Cow and human traffic – Varanasi / India

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Men / Boys – Varanasi / India

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Saddhu – Varanasi / India

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Paan wallah – Varanasi / India

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Karma is my business – Varanasi / India

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Dainik Jagran – Varanasi / India

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Blending in – Varanasi / India

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Saddhu – Varanasi / India

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Saddhu – Varanasi / India

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Moksha @ Ganga Ghat – Ganges River – Varanasi / India

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Blending in 2 @ Ganga Ghat – Ganges River – Varanasi / India

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Lighting a Puja for Shiva @ Ganga Ghat – Ganges River – Varanasi / India

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Puja wallah @ Ganga Ghat – Ganges River – Varanasi / India

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Puja for Shiva @ Ganga – Ganges River – Varanasi / India

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Mother and child @ Ganga Ghat – Ganges River – Varanasi / India

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Saddhu @ Ganga Ghat – Ganges River – Varanasi / India

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Lets bargain – Varanasi / India

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Swastika in Varanasi / India

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Ganpati Guest House welcomes you – Varanasi / India

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Man, boy and roof fixture over Ganga – Ganges River – Varanasi / India

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Saleem, rickshaw guide in Old Delhi, by Jama Masjid – India

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Welcome to Nizamuddin East – New Delhi / India

Photos by Maria Bitarello

Varanasi, Old Delhi, Nizamuddin East (New Delhi)
India – 2016

Ferrania / Ilford HP5 Plus 120mm

Incredible India

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MINING THE LIGHT
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MARKET AND PRAYER
Laad Bazar, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MYSTS
Temple @ Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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STORYTELLING
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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FORTIFIED CITY
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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SHORT-CIRCUITED PEARLS
Laad Bazar, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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CHORES
Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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LASSI
Laad Bazar, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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PRAYER AND MISCHIEF
Temple @ Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MUSLIM-HINDU HENGE
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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HIGH-SCHOOL TELUGO
Laad Bazar, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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ADOLESCENCE
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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HITEC CITY
Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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GURMIT, THE SIKH
Temple @ Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MOHAMMED
Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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INDIAN MAN
Fort @ Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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THREE WHEELS
Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MUSLIM WALL
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

Petit Santôs

Semana passada, voei pela primeira vez na Emirates Airlines, o George V da aviação. A nécessaire de bordo traz amostras da Bulgari. Pode-se usar o iPhone durante o voo. O cockpit-assento-cama tem colchonete para amaciar o sono e a vida, aberto em 180 graus completos. As refeições são servidas em louça. A bebida é liberada. Os comissários adoráveis. O teto é mais alto, e o piloto, exímio. Só não pode fumar. Nunca fui tão bem tratada no ar, quiçá na terra. Foram 14 horas de voo até Dubai; 12 de sono. Eu já vinha pensando em escrever sobre o aviador mineiro, diante da data comemorativa de 106 anos do voo do 14-bis. E as coincidências me levaram à Índia, de Emirates, justo a tempo.

No dia 23 de outubro de 1906, Santos Dumont realizou o primeiro voo público da história em um objeto mais pesado que o ar com propulsão própria. Ou seja, decolou e pousou por meios próprios; não foi um salto de asa-delta/planador, foi realmente uma decolagem. Ele fez isso no Campo de Bagatelle, em Paris. Foi um voo curtinho. Ele percorreu 60m em 7 segundos, a 2 metros de altura do solo, numa geringonça de 290kg com motorzinho de 5 cavalos.  Levou 3 mil francos, na época. Fez história.

Santos Dumont era mineiro. De uma cidade ao lado da minha. Hoje o lugar leva seu nome e a casa onde ele nasceu – e que mais tarde veio a comprar – é o Museu do Cabangu. Nasceu ali, mas cresceu no interior de São Paulo e passou grande parte da vida adulta em Paris. Quando abandonou a aviação, desgostoso, voltou para o Brasil e comprou a propriedade mineira, onde começou a criar gado holandês. E no fim, morreu em Guarujá, três dias após seu aniversário de 59 anos. Não viu a guerra. Nem a luftwaffe, os mísseis, a Endeavor e muito menos a Emirates. Cabeça aberta e curioso quando jovem, apaixonado pelas descobertas, Santos Dumont  com o tempo virou um recluso, amargurou-se. Suspeito que não gostaria do spa aéreo em que se transformou a aviação de luxo. Seu interesse pelas aeronaves talvez acabasse ali com os B-52’s. Vai saber.

Em 2006, colaborei com a pesquisa e redação do livro Santos Dumont: retorno às origens – A vida do pai da aviação em sua terra natal, de Isabel Pequeno e Sergio Bara, grandes amigos e colegas de trabalho. Um apanhado de fotografias, cartas, objetos pessoais e relatos até então inéditos, cujos cuidados estão nas mãos da Fundação Casa de Cabangu, detentora de um rico acervo.

Entregue as últimas páginas do livro e ainda naquele mesmo ano do centenário do infame voo do 14-bis, fui a Paris. Era minha primeira vez. E fui pautada para escrever uma matéria sobre a data do 23 de outubro. Virou um roteiro de viagem à Paris do petit Santôs. Texto e imagens contrapunham a cidade de então com a de hoje, de maneira biográfica. O Campo de Bagatelle; o Musée de l’Air et de l’Espace no Aéroport du Bourget – onde está a réplica do simpático aviãozinho e de outros modelos, como a Demoiselle –; a Villa Santos Dumont; o edifício onde ele viveu no 17ème arrondissement; o hotel atrás da Torre Eiffel, onde caiu com seu dirigível; a Maison Cartier, na Champs-Élysées, onde ainda residem amostras de uma edição limitada do relógio de pulso desenhado sob encomenda pela grife para o aviador. O primeiro relógio de pulso da história. São muitas as histórias.

A matéria saiu, mas Paris ficou. Ainda voltei muitas vezes, até me mudar pra lá. Hoje a cidade é outra no meu imaginário; o carinho é maior. No entanto, fica sempre uma lembrança bonita daquela primeira vez, daquele primeiro amor, da descoberta de suas esquinas enviesadas com a aviação mineira. Atenta às coincidências e ao acaso, foi numa dessas que fui parar na casa de mais um mineiro em Paris, que me acolheu e me fotografou. Sua família era de Santos Dumont. Não pude ignorar. Chamei-o pra pauta e ele aceitou.

Entrou pra matéria e pra minha vida. Porque o sentido das coisas somos nós que atribuímos. Sinais só existem quando percebidos. Para ganharem vida, devem ligar-se às pessoas e a suas histórias. Só assim cabe, numa mesma crônica, a Índia, a Emirates e a Paris de Santos Dumont.

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Perdidos em Bois de Boulogne, Paris (2006), by Maria Bitarello