A arte de morrer

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Manikarnika Ghat, Varanasi, Índia

Um dos momentos mais importantes em “Bacantes”, na montagem do Teatro Oficina a partir do texto de Eurípedes, é o estraçalhamento do corpo de Penteu. Um ato indissociável da entrega de Penteu a seu fim. De certa forma, é a consumação da tragédia, o ato em que o antagonista compreende e aceita seu papel. A cena é violenta e bela. Desse ritual de morte, todos são convidados a participar. Primeiro, do estraçalhamento, depois, do banquete onde Penteu será comido pelas bacantes, pelos tebanos, por todos nós; o momento da festa. Assim como todos ali presentes, Penteu percebe a situação em que se encontra, reconhece o inescapável – a morte, ali, pelas mãos delas – e abre os braços. Não resiste. Recebe. E morre.

Em dezembro, antes do fim da temporada de “Bacantes”, voltei a Varanasi, na Índia – a mais importante das cidades sagradas hindus e uma das mais antigas do mundo – e me lembrei o quão insípidos são os rituais de morte em muitas culturas.

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Dia de Finados

“Você morreu pra mim. Nunca mais quero te ver.” Queima-se cartas, rasga-se fotos, apaga-se mensagens de celular e email, muda-se de amigos. Enterramos o outro em vida. Encerramos um amor ou uma amizade. A paixão adolescente é dramática, e sofrida é a primeira perda. “Como será possível a vida continuar sem você”, esbravejamos, mão contra o peito, “sobretudo porque você está vivo? Sua vida continua, só não é mais comigo.” A dor é muito grande; a incompreensão e frustração, maiores. E delas tiramos aprendizado.

É Finados. Dia dos Mortos. Aqueles que a vida tira de nós. É dia dos vivos lembrarem-se deles. Quando eu era criança, achava a cerimônia de morte demasiado mórbida. Velar o corpo era uma tara que eu não pretendia partilhar. Isso muito antes de entender o luto. E, sobretudo, que trata-se de um ritual para os vivos. Para seguirmos adiante sem arrastar um caixão desajeitado vida afora. Sem assombração nem nada. Porque ao contrário do que nos dizem na infância, a morte não vem apenas no fim. Acontece o tempo todo. Ao nosso redor, dentro de casa. Em nós mesmos. A vida toda.

Proponho, portanto, que hoje lembremos também daqueles que extirpamos da nossa vida sem óbito. Pela separação. Para que nos lembremos mesmo depois que não recordarmos mais os detalhes do rosto. Pois “eliminar os mortos da memória não é possível. O passado está cheio de mortos, mas aqui estou eu a continuar a lhes dar vida. Quem é que se pode separar disso?”. A frase é de José Saramago, que também diz que o passado não passa, acumula. Empilhado sobre o presente. Nesta pilha, enfileiram-se os sepultamentos póstumos e também as mortes em vida.

Gostaria, ainda, de evocar um terceiro tipo de defunto. Da categoria Lance Armstrong. Que não foi tirado de nós e que nós não afastamos voluntariamente. É a História que apaga seu traço; eis sua condenação. O morto-vivo punido com o esquecimento. O ostracismo. Todos os grandes – nos esportes, nas artes, nas ciências – buscam a imortalidade. Sua perpetuação. Tirá-la é uma forma de punição customizada das mais perversas. Falei sobre isso em outro artigo nessa coluna, lembrando “1984”, de George Orwell.

E a primeira coisa em que pensei quando soube do afastamento de Armstrong foi justamente Orwell. “Não estamos mais em guerra com a Eurásia; na verdade, nunca estivemos”. Lobotomia ideológica em “1984”. A cada reviravolta na política, apagam-se os arquivos de jornal. Deleta-se do cotidiano todo e qualquer vestígio. Uma verdade que nunca houvera, da qual se duvida e que aos poucos vira uma mentira.

O ciclista americano vai “sair” da História como o farsante que teve seu mandato esportivo caçado. Não será esquecido por completo, mas, em 100 anos, será um rosto desbotado. Ele, antigo detentor dos impressionantes 7 títulos na Tour de France, em sequência. Com o passar das gerações, seu nome – apagado do panteão do esporte – deixará de ser dito. Seu doping não será usado como exemplo. Uma decisão judicial que hoje custa mais a nós, seu público, sobre quem pesa a incumbência do esquecimento. Forçados por lei a enterrar sua glória.

Sempre dizem que “a vida continua”, mas a vida sempre acaba. É a morte que continua, para sempre. E enquanto estivermos por aqui, levamos nossos mortos conosco, pelas mãos. Há os que, diante disso, prefiram tirar as perdas de vista. Maquiar a ausência onipresente. E há os que prefiram ver para exorcizar. Fitar o corpo. No meio dos dois, com tempo e paciência, existe outro lugar. Onde lembramos para seguir adiante. Onde há dor, não sofrimento. As saudades não passam mesmo. Mas mudam.

Nesse Finados, portanto, penso nos vivos. Pois não há aceitação no esquecimento. Penso em quem recorda. Em quem se separou em vida. Em Lance Armstrong. E se uma criança me perguntar, amanhã, quem foi o ciclista, não vou repreendê-la. Não vou sussurrar baixinho. Muito menos prometer contar a verdade quando ela tiver idade. O americano é um memorial vivo, erguido em praça pública. Não nos deixa esquecer. Nos ajuda a prosseguir de mãos dadas com nossa história, os olhos abertos. Que façamos uso dele.

Jardin du Coq, Clermont-Ferrand, França (2010), by Maria Bitarello