Pelo direito a não ter carreira alguma


“Carreiras são uma invenção do século 20, e eu não quero uma”. Quando li essa frase, conclui no ato: nem eu! Um dos primeiros pânicos que tive, ainda bem nova, ao me projetar adulta era justamente esse: como é que eu vou conseguir trabalhar a vida toda fazendo a mesma coisa? Tinha calafrios noturnos com a ideia. Isso muito antes de ler a frase acima no livro de Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem. Muito antes de saber que não era preciso fazer todo dia a mesma coisa pra ser um adulto. Se soubesse então que carreiras são uma invenção recente, teria me concentrado em sofrer apenas com os outros dois desse trio de terrores do reino assombrado da “maturidade”: 1) acordar cedo todo dia; 2) e ter que virar esposa e mãe. Me sentia completamente inapta pra todos eles.

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O que eu (não) sei sobre Ulisses

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Nunca li Ulisses. Confesso que nem tenho vontade. Tampouco li Ilíada, nem Odisseia. Não sei muito sobre esses personagens que partilham o nome Ulisses. Mas batizada, eu também, com um nome que carrega histórias e personagens – Maria, há tantas –, entendi logo o fardo que carregava aquele garoto de 18 anos que conheci na faculdade. Talvez os nomes tenham sido o primeiro passo em nossa dança de aproximação e amizade. Será que se tivéssemos outros nomes seríamos amigos há 15 anos? Não saberemos, mas fica aberto o espaço à divagação, à fantasia, caldo e alimento do escritor – nosso ofício, meu e dele – e amálgama da maioria das nossas conversas ao longo dos anos. E, eu viria a saber mais pra frente, os nomes, na vida e na obra do Ulisses, jamais prescindem de valor e subtexto.

Em nossos primeiros meses de convivência e alto potencial de aproximação feliz, Ulisses me fez uma proposta e um convite que eu aceitei: confiou, a mim, um segredo. Eu não sabia na época, mas confiar a alguém algo seu, algo íntimo, é a maneira mais certa de ganhar sua lealdade. Guardei-o comigo, com mais zelo do que se fosse meu. Ulisses, que é muito mais inteligente do que eu, um mestre das paixões humanas, já sabia que eu o guardaria. E viramos amigos. Irmãos. Confidentes. Parceiros. Almas gêmeas. E, anos mais tarde, também colegas de o(fí)cio. Minha trajetória de escritora é intrinsicamente ligada e indissociável de minha amizade com Ulisses. Ele encadernou, organizou, prefaciou, revisou e editou meus primeiros textos, todos eles. Montou-os em edições caseiras, me mostrou que eu já escrevia, que o ofício já estava lá. E quando meu livro nasceu, foi ele quem fez o parto.

Não há orgulho em ser assim. Escritor. Há conformação. Durante os anos, me lembro de não poucos momentos em que decidimos, ambos, parar de escrever. Hoje rio sozinha lembrando disso. Não éramos acometidos ao mesmo tempo por esse mal estar, ainda bem. Quando um ficava estremecido, o outro estava ali pra dar uma escorada. Sempre tivemos uma facilidade muito evidente pra entrar em conversas de cunho estritamente estético. E a velocidade com que passamos a embarcar nessa tangente de assuntos foi se aprimorando com o tempo. Já há 8 anos não residimos na mesma cidade; metade desse tempo, sequer no mesmo país. Fomos afiando nossa navalha da intimidade argumentativa nas janelas de oportunidade que apareciam. Revelações íntimas e detalhadas foram compartilhadas em trajetos de 20 minutos, da rodoviária à casa, algumas dezenas de vezes. Conversas ao portão. Sentados no meio fio. Deitados à tarde, olhando pro teto, ignorando as chamadas (de celular) do mundo lá fora, externo a nossa bolha e, portanto, fora de nossa prioridade (e sobretudo de nosso interesse).

Somos muito diferentes, porém estranhamente complementares. Não brigamos, embora discordemos com frequência. Respeitamos o sono e as vontades do outro. Passamos horas em silêncio confortável. Dançamos. Cantamos. Comemos. Lemos juntos. E rimos muito, sempre. Geramos ciúmes, com certeza, mas prefiro acreditar que incitamos ainda mais admiração. Afinal, amizades como a nossa são pequenos tesouros, e não sobrevivem por vontade divina. Perduram e resistem por uma mistura de cuidado, carinho e respeito de ambas as partes. E também por um certo elemento, imprescindível, de ausência de esforço. A palavra em inglês é effortless. O que sempre nos ajudou, indiretamente, a não cair no drama. Juntos fomos tentando, e na maior parte do tempo conseguindo, transitar da tragédia à comédia sem escala pelo drama. No fim, a diferença entre as duas é apenas temporal. Passado certo tempo, toda tragédia vira comédia. E Ulisses domina, com maestria, esse timing. Ninguém o ensinou isso. Veio com ele. Suspeito que herdado da mãe.

Feito esse preâmbulo, volto-me a Homo Sapiens Erectus. Esse é o décimo livro do Ulisses. Eu o li, e todos os anteriores também, no manuscrito, na versão caseira, rascunhada, aquela que a gente nunca vê dos nossos autores favoritos. Esquecemos de nos lembrar que todo mundo tem rascunhos. E nossos rascunhos, acredite, não são a obra. São o zigoto de uma ideia. Portanto, quando alguém te confia um manuscrito de um livro, aceite-o com pompas. Se não for pra honrá-lo, recuse-o de uma vez. Porque ali está um pedacinho da alma do escritor que lhe é entregue em mãos, encadernada. Tenha em mente que ele pode, sim, valer mais que um segredo. Ser mais íntimo. E essa aposta, esse convite do Ulisses, eu também aceitei. Com gratidão e humildade. Miigwech.

A primeira vez que tive contato com os contos que compõem esse volume já faz 5 anos. Eu morava na França, e o manuscrito que até hoje eu guardo, com meus rabiscos e impressões, me foi enviado por correio. Eu e Ulisses fomos capazes de manter nossa comunicação fraterna e editorial através dessas distâncias transatlânticas, e Homo Sapiens Erectus foi um desses projetos epistolares. Suspeito até que a distância tornou nosso diálogo literário ainda mais rico, como se através da arte, da literatura, nosso amor e vontade de partilhar fossem transmitidos com mais precisão. Direto ao coração. Me dedicava a essas atividades com o afinco de uma apaixonada. De corpo e alma presentes, sentia que o espaço-tempo coincidia. Isso nos manteve ligados com um arco muito mais teso que conversas ao telefone, que raríssimas vezes tivemos. Há muitos anos já havia desistido de conversar ao telefone com o Ulisses. Aprendi cedo que ali não dava jogo. Ele é lacônico e esquisito de fone ao ouvido.

O que vocês têm em mãos, portanto, caro leitor, esse compêndio de histórias e fantasias, é um exercício da vontade, da paciência e da teimosia do autor. São contos que ele vinha escrevendo há mais de 15 anos, desde a adolescência, e cuja publicação vem sendo gestada há mais de cinco. Fantasias vividas, idealizadas, escondidas, teatralizadas, sublimadas, mas nunca ignoradas. Há o belo, o fetiche, o perverso, o infantil. Fantasias que dão tesão, outras que dão medo, e até culpa. E a catarse da escrita, ele aprendeu cedo, cura. Recria. Funciona tanto que há autores que deixem de viver fora do livro, tamanha a satisfação advinda da imersão.

Já contei em uma crônica minha que o método de criação desse meu amigo me intriga. Essa sua forma de processar as ideias, encontrando-as e organizando-as em sua cabeça antes de escrever uma linha sequer. Ele tem um caderninho. Mas as palavras ali não abundam. Às vezes, toda a gênese de um romance – que ele sabe do início ao fim, diálogos inclusos – está contida em uma única palavra, em letras estilizadas e garrafais, com rabiscos circundantes. Tipo um desenho que se faz na última folha do caderno de escola, onde a gente deixa o inconsciente (e o tédio) fluir enquanto fracassamos em prestar atenção na aula. E, pensando bem, é por aí mesmo que a criatividade do Ulisses opera. Como nossa amizade. No acaso distraído. Na atenção flutuante. Na vigília agitada e no sono vespertino.

Um professor meu, no mestrado em literatura, me explicou em aula a diferença entre o autor, o narrador e a voz narrativa. Às vezes, a voz narrativa é a voz do narrador. Outras não. Às vezes, o leitor sabe apenas o que o narrador sabe, outras sabe mais que ele. E de vez em quando, mas com muito menor frequência, o narrador, a voz narrativa e o autor são o mesmo. E mesmo nesses casos, nunca são exatamente o mesmo. Porque até contando a “verdade”, mentimos. E o livro confessional também é uma ficção. O Ulisses gosta da mentira. Regozija-se dela. Refestela-se. Pratica-a em muitos lugares, em muitos tempos. O que não tem nada a ver com falta de honestidade. Aliás, muito pelo contrário – e me aproveito de uma ideia de Dostoyevsky, em Crime e Castigo: é de mentira em mentira que se chega à tal verdade. E Ulisses, que é analista, escritor, professor e contador de histórias, sabe muito bem disso. Acho até que é por isso que ganha a vida contando e ouvindo histórias.

Ofereço aqui, portanto, uma nota de advertência de uma velha marinheira desses mares de Homero: duvide, sempre, do Ulisses, mas não de seus narradores. Aqui, nesse volume, você vai encontrar muitos deles. Cada hora um. Nenhum deles é o autor. Nenhum. Portanto, guarde suas ressalvas para o homem que gerou tantos outros homens e tem horror a ser levado a sério. Se encontrá-lo na rua, no bar, no cinema, desconfie, provoque, cutuque-o. E guarde sua confiança para a duração que tiver sua travessia por essas páginas. O narrador é coisa séria. E aqui, autor, narrador e voz narrativas só se cruzam nas nossas interpretações, nas concatenações do leitor.

Ulisses, caprichoso, me confessou muito cedo ter uma fantasia das mais picantes: sonhava em, um dia, não criar mais histórias em sua cabeça. Aspirava viver uma vida onde as experiências e as fantasias não se transformam em personagens e eventos. Esse, e não tudo que você vai ler nesse livro, foi seu maior fetiche. Não sei se perdura, porque as fantasias também se gastam e desgastam. Afinal, percebemos, com o passar dos anos, que maior covardia não é a vida de escritor – esse ser solitário e esquisito que vive em seu cubículo imaginário, acompanhado de palavras, monstros, sonhos e vaidades. A maior covardia é não escrever. E, em seguida, não publicar. A gente se vê descobre no que escreve. A gente publica pra não viver rodeado de fantasmas e de rascunhos inacabados.

Dito tudo isso, você deve estar se perguntando o que eu não sei sobre o Ulisses. E eu arrisco dizer: mais coisas do que eu suponho. Ulisses preserva mistérios e cultiva segredos. Mas a partir de agora, caro leitor, esse livro que você tem em mãos não é mais um deles. Honre-o.

Prefácio escrito para o livro Homo Sapiens Erectusde Ulisses Belleigoli.

Madonna e Niemeyer

Já ouvi dizer que pessoas em cargo de mais responsabilidade e confiança ou de maior projeção profissional tendem a viver mais. Que o trabalho por ser feito mantém as pessoas vivas por mais tempo. Que o compromisso tira o pé da cova. Faz sentido, suponho. E sempre pensei isso do velho Oscar. Esse sagitariano danado que no dia 15 teria completado 105 anos, uns 90 deles de tabagismo intenso e convicto. Penso num senso de dever, e talvez até de missão, que impulsiona pessoas como ele. E, ciente do risco de ser apedrejada em praça pública, proponho uma associação arriscada entre duas figuras icônicas: Madonna e Niemeyer.

Creio que Madonna também viverá uma vida longa e ativa. Que depois da turnê acústica que quem sabe virá mais pra frente, ela vai passar para outras formas de criação (apostaria no cinema), mas não parar. Porque parar, realmente, seria o fim. E acho que com ela, como com Oscar, é o fim que os detém, não o contrário. Sim, vaidade é fundamental. A humildade não te faz levantar todos os dias e seguir sendo Madonna ou Niemeyer. Daí o risco que vem embutido neste senso messiânico. Leva a abusos, delírios de grandeza. E, não raro, à loucura.

Anos atrás li uma matéria, na Folha se não me engano, em que vários arquitetos renomados falavam sobre o ofício. Um deles, não me lembro mais qual, disse que o sonho de todo e qualquer arquiteto é, uma vez na vida, produzir uma grande obra. Atingir o sublime. E que ser contemporâneo de Niemeyer tinha sua dose de dor e de delícia. A inspiração e a opressão de um gênio que fez de suas obras, todas elas, primas. E ser contemporânea de Madonna não tem, igualmente, um sabor agridoce? Cito o jornalista Rodrigo Levino: “Quem tiver acompanhado a vinda recente de toda a nova geração de cantoras pop ao Brasil (Britney Spears, Christina Aguilera, Rihanna, Lady Gaga, Katy Perry), não deixará de constatar o óbvio: no dia em que o trono de Madonna vagar, vago continuará.” Para quem não gosta dela, a americana deve ser um rochedo no sapato. Madonna não larga o osso. E se nem Cristo foi unanimidade, como se diz por aí, tampouco foi o simpático e comunista Niemeyer.

De um lado, ela. Dentre suas súditas praticantes – ou seja, todas as performers femininas que vieram depois dela –, quantas duraram? Seu pioneirismo é incontestável. E 30 anos de carreira, sem perder o penteado, não são para qualquer um. Tem que ter a cabeça no lugar. Olhe aí no passado e no presente. Grandes homens e mulheres em potencial. A maioria amarela no meio do jogo e não volta para o segundo tempo. Morrem, piram, não aguentam o rojão. E conta-se nos dedos de uma única mão quem atingiu uma carreira desta solidez. Quem tem, em todos os discos, pelo menos uma ou duas músicas que ficam. Com certeza os Rolling Stones são dessa pequena elite.

De outro lado, ele. Entre arquitetos e estudantes de arquitetura que conheço, encontro críticas, reprimendas, desgostos com suas curvas e blocos soviéticos. Um argumento que eu respeito e tento entender, mas que muitas vezes me parece mais uma justificativa racional – a política por trás daquela cidade de Brasília, linda e estranha – que uma reação visceral a uma obra. E como eu acredito que arquitetura é a forma de arte mais interessante de se ver e de maior impacto sobre nosso cotidiano, prefiro a via irracional.

As artes são um pouco como o olfato. Antes de você reconhecer o aroma no ar, ele já te provocou alguma reação. Atração, repulsa, familiaridade. A arquitetura chega até você a despeito de sua permissão e de sua vontade. Apesar da política. A música tem a mesma natureza no campo sonoro. E ainda bem que é assim. Desconfio que se você for a um show da Madonna aberto à experiência que ela tem a intenção de te proporcionar, se não ficar emburrado com o playback e não for buscando uma coisa preconcebida, você vai com certeza se divertir. Porque é o que é. Um espetáculo. Não é Ramones ou The Stooges. E dentro de sua proposta, ela é a melhor. Como Oscar.

Recentemente voltei a Brasília e o encantamento perdura. E no último dia 5 fui ao show dela no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Aguardando o início sob chuva, recebi uma mensagem no celular. “Agora o mundo realmente acaba… Niemeyer morreu.” Soltei um “Ah” de lamento em voz alta e as luzes se apagaram, fãs urraram e o show, três horas atrasado, começou com o soar de sinos e o balançar de um incensário gigante. Monges ergueram-se no palco, uma catedral de espelhos estilhaçou-se e ela, à la madonna, desceu do confessionário.

Durante esse prelúdio sacro, pensei no Oscar. Fiz meu minuto de silêncio. Admirei a diligência. A abnegação de outra vida. A aceitação de uma escolha, ou até da falta dela. O toque do divino, ou não. O trabalho exaustivo. A vida pessoal prejudicada. O amor pelo ofício. A preocupação com seu público. Lembrei de tudo dele que eu conhecia, suas obras. Tudo isso que vale para Oscar, vale para Madonna. Os dois são farinha do mesmo saco. Inquietos. E, para mim, a abertura deste show da turnê MDNA foi o réquiem do arquiteto. Me achei com sorte. Dessa eu não me esqueço.