Antonio Candido

No fim de outubro, fui à Pinacoteca, no centro de São Paulo, visitar a exposição “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos”, em comemoração ao aniversário de nascimento do pintor e fiquei inspiradíssima. Recomendo desde já uma visita e um mergulho na obra do carioca que foi uma espécie de cronista de seu tempo. Suas charges e ilustrações pra revistas foram, para mim, a maior e mais deliciosa surpresa, pois, sem se dar conta (ou se dando conta), Di foi registrando a passagem do século 20, seus tipos e suas modas, seus políticos e suas vedetes, suas fofocas e tabus. Um deleite. Saí de lá animada e pensando no Antonio Candido.

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Devaneios sobre a cultura do olhar

Semana passada meu padrasto americano estava em São Paulo e fomos tomar uma cerveja no bar da esquina aqui de casa. Ele comentou que gosta da maneira como as pessoas se olham em São Paulo. Que é muito diferente da forma como as pessoas se olham no interior de Minas, onde ele mora com minha mãe. Achei que faz total sentido. Sou uma entusiasta da prática de people watching, gosto de observar essas sutilezas, mas até então sempre as definia em termos culturais bem amplos. Brasileiros olham de um jeito, franceses de outro, americanos de outro, por aí vai. A observação dele me levou a ponderar também sobre as diferenças regionais. E no ato, no meio daquele copo de cerveja, soube que seria esse o mote pra minha crônica dessa semana.

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Bicicleta lifestyle

Esses dias fiquei pensando que o tuk-tuk é, pra uma cidade indiana, o que a carroça é (ou foi) no ambiente rural. O que a charrete foi no século 19. O que talvez as bigas tenham sido na Roma antiga. Um meio de transporte que te permite deslocar-se enquanto interage e observa o entorno de outro ângulo, em outra velocidade, mas ainda assim, em proximidade dos demais. O tuk-tuk, mesmo motorizado como é hoje, me parece ser um sobrevivente desse contato no trânsito que ainda era pessoal. E o que me veio à cabeça e ao coração todas as vezes que entrei num tuk-tuk na minha última viagem à Índia, há poucos meses, foi a bicicleta. Eles têm uma vibe parecida. Você tá ali, no corpo-a-corpo. Sobre rodas, mas ao ar livre. O trânsito apertado. O calor do escapamento dos carros. As pessoas a pé. Tudo muito perto. Olho no olho.

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O rapto da Pau-Brasil

Fiquei confusa ao ver a vaga vazia, mas logo me recompus: não parei nessa rua. Peraí! Parei, sim. Aqui na esquina. Agora lembrei. Já era bem tarde quando estacionei. Paro com frequência nessa rua, e quase sempre é nesse local, que é o único livre na madrugada. Putz! Roubaram meu carro! Só pode. Não seria a primeira vez. Esse sentimento de vazio eu conheço. Ah, tem um policial ali, que sorte! Vou falar com ele. Só que já tem um cara meio revoltado falando com ele. Que estranho. Parece que o carro dele também sumiu. Ele está cheio de ira. Melhor eu esperar aqui no canto. Curioso. Não tem nenhum carro parado na rua. Justo aqui, nessa travessa tão residencial da Vila Madalena, a um quarteirão da minha casa. É estacionamento de moradores do bairro, a maioria de nós sem garagem. Olha, lá no fim do rua, quantos policiais. Devem ter mais de 20. E esses cavaletes bloqueando passagem. Deve ser por causa do carnaval de rua.

“Essa placa não estava aqui ontem. Você está vendo os entulhos ao lado do poste aqui no chão? Ela foi colocada essa noite. Eu moro aqui há 10 anos. Tô te falando que essa placa não existia até ontem”, meu vizinho, desconhecido até aquele momento, esbraveja. Eu interrompo a conversa, timidamente. “Meu carro sumiu”. “Aí, tá vendo? Nem se a gente tivesse combinado! Não foi só você, amiga. O meu também”, o vizinho lamenta, rosto vermelho de raiva, tentando uma aproximação entre vítimas, mas com tanta agressividade que a manobra passa quase despercebida. “Roubaram?”, eu arrisco. “Roubaram nada”, ele retruca rapidamente, olhando com acusação para os dois policiais que estão conosco, “Guincharam!”. “Não fomos nós, a CET que deve ter levado”, explica um dos PMs. “Guincharam a rua inteira?”, pergunto, incrédula. “A rua i-n-t-e-i-r-a”, reforça o vizinho, já descabelado de desgosto.

Paro por alguns segundos. Talvez 10. “Bem, então não há muito o que fazer aqui. Obrigada. Vou ligar pra CET”, e viro-me pra deixar a rua. “Como você pode ficar calma assim?”, me ataca o vizinho, agora deixando de lado essa de vítimas-unidas-jamais-serão-vencidas e já me vendo como inimiga. “Ué, o carro já foi guinchado. Essa é a situação atual. Eu estou atrasada, preciso ir. Agora só resolvendo o problema mesmo. É o que vou fazer. Boa sorte”, me despeço já andando em uma direção enquanto ele marcha na outra. Vou chegar atrasada no ensaio, preciso ver como vou para o teatro, ligar pra CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), minha amiga me espera pra decidirmos algo ali no meio de rua… Mas mal dou dois passos, nem chego à esquina, quando sinto aquele arrepio no couro cabeludo e um salto na batida do coração: dentro do meu carro havia 35 mudas de Pau-Brasil. Como pude me esquecer disso? Uma florestinha sobre rodas. Cada muda tem 1m de altura e, juntas, elas ocupam toda a parte de trás do carro, deixando livres, apenas, os bancos da frente. Elas já estavam lá dentro desde a noite anterior, em breve começariam a morrer.

E por que é que havia 35 mudas de Pau-Brasil no meu carro?, seria a pergunta lógica a se fazer nesse ponto da narrativa. Porque na noite anterior ao guinchamento eu e a amiga, que agora acompanhava meu drama automotivo, havíamos ido ao mercado da Ceagesp, na Marginal Pinheiros. Era minha segunda vez lá. Um local famoso de São Paulo e nem tão longe da minha casa, mas razões pra que eu ali fosse nunca haviam se apresentado até então. Até que se apresentaram: a aquisição dessa tropa de mudas. A primeira ida ao mercado fora pra pesquisar; a segunda, pra buscá-las. E qual não foi minha surpresa, ambas as vezes, quando ao lá chegar me deparei com uma animada multidão.

A Feira de Flores ocorre às terças e sextas, da meia-noite às 8h30. Um horário compatível com a rotina de quem vive da compra e venda de plantas. Eu, do cume de minha ignorância, não podia imaginar o tamanho da feira e a quantidade de pessoas que ali se reúnem na madruga pra comprar produtos botânicos. Começando pela fila de carros na entrada. Depois, box após box, caminhão após caminhão, quase um campo de futebol de mercadores de flores e tantas outras plantas. Barraquinhas de churros, pastel frito, milho verde, empada, tapioca; venda de cerveja, suco, garapa, água de coco. Famílias às compras, jovens mercadores, velhos vendedores, casais, adolescentes entediados e até bichos de estimação. Recomendo uma ida à Feira. É uma dessas experiências pitorescas de São Paulo.

Fim da digressão. No ato da compra, o vendedor, Dioni – com o qual já havia trocado alguns telefonemas pra combinar a transação –, me garantiu que as mudas ficariam bem dentro do carro até a tarde seguinte, quando teria que levá-las ao Teatro Oficina. Um carregador levou-as em uma carrocinha até meu carro, parado lá longe no estacionamento 7 da Ceagesp. Ligeiro das pernas curtas, o carregador era bem mais baixo do que eu e levava todas as mudas no muque, mas me deixou comendo poeira. Tive que dar pequenas corridinhas pra alcançá-lo. Uma vez no carro, baixamos os bancos traseiros e enchemos tudo com as 35 arvorezinhas. Era uma paisagem bonita de se ver. Tanto verde. O carro deu até uma arriada na traseira. Saí de lá feliz com a aquisição. Feliz por ter conhecido esse mundo da madrugada, até então absolutamente desconhecido por mim. Feliz em pensar nos novos lares que as mudas teriam a partir da semana seguinte. Cansada, porém em paz. Chegando em casa, estacionei ali perto e não voltei a ver o carro até o momento da pegadinha pregada pela CET.

Por que pegadinha? Porque, de fato, meu vizinho cheio de ira tinha razão. Quando estacionei o carro, tudo parecia como de costume. Eu já havia parado ali incontáveis vezes sem nenhum problema. E, convenhamos, se a CET guinchou toda uma rua de carros, é bastante provável que tenha havido um erro de comunicação por parte deles, pois 15 carros pararem ilegalmente na mesma rua deve ser uma anomalia, até mesmo no trânsito alucinado de São Paulo. Além disso, como bem apontou o vizinho, na noite anterior não havia a placa de Proibido Estacionar – e nem nos 4 anos anteriores, desde que resido no bairro. De fato, era uma semana antes do carnaval, e já estávamos dentro da programação do carnaval de rua organizado pela prefeitura de São Paulo. Havia uma programação intensa da qual nós (no Teatro Oficina) faríamos inclusive parte. Mas a CET falhou em avisar, de véspera, que no dia seguinte um bloco passaria pela rua em questão e que, portanto, não seria permitido estacionar. Se os cavaletes que vi após o guinchamento estivessem lá quando eu cheguei à noite, naturalmente teria estacionado alhures. Até porque a rua estaria bloqueada pra entrada de carros. Mas foi não foi nada disso que aconteceu. Os cavaletes não estavam lá, nem a placa. E no dia seguinte, nem o carro. Consequentemente, as mudas tampouco.

Infográfico: entenda o conflito. As mudas foram adquiridas com o dinheiro de muitas pessoas. Não eram minhas. O Bloco Pau-Brasil – uma ideia levada adiante pelo Teatro Oficina e pela Universidade Antropófaga – integrou a programação oficial do carnaval de rua da cidade. Pra viabilizar nosso bloco, criamos uma Vakinha, um dos métodos de financiamento coletivo disponíveis hoje na internet, e uma das recompensas previstas, dependendo do valor doado, era uma muda de Pau-Brasil. Então dá pra entender a situação. Todas as mudas, de todos esses colaboradores virtuais, estavam presas no pátio da CET, dentro do meu carro, em potencial asfixia.

Detalhes importantes ainda não revelados: a descoberta da ausência do carro se deu pouco antes das 18h de uma sexta-feira. Quando liguei pra CET, minutos após a despedida do vizinho irado, a pessoa que me atendeu me informou que: 1) eu teria que ir ao Detran na Avenida do Estado (Metrô Armênia) liberar o carro; 2) isso só poderia ser feito na segunda-feira, em horário comercial; 3) pra isso precisaria pagar a multa/diária/custo do guincho de R$ 800 (e cada dia a mais implicaria no aumento desse valor; 4) só o proprietário do veículo poderia fazer isso, em pessoa; 5) depois, com o documento de liberação em mãos, teria de ir ao pátio da CET recuperar o carro, na Marginal; e 6) se eu tivesse pertences que precisassem ser retirados de lá antes disso, poderia ir ao pátio pra fazê-lo em qualquer momento.

Questões que me coloquei: não sou a proprietária. O carro é da minha avó, que tem quase 87 anos e mora em Minas Gerais, a 500 km de São Paulo. Pra que eu pudesse retirar o carro de lá sem pagar uma multa mais assombrosa e sem obrigá-la a vir até São Paulo, ela precisaria me enviar uma procuração feita em cartório na segunda cedo, me concedendo plenos poderes sobre o carro, pra na sequência enviá-la por sedex 10, a fim de que chegasse aqui na terça e eu pudesse, nesse mesmo dia, passar pela sabatina Detran/Pátio da CET. Tudo bem, faria isso. Não havia alternativa. E, honestamente, quanto aos R$ 800, pensei: o que é um peidinho pra que está todo cagado? Uma semana antes, meu laptop havia perecido subitamente e, após avaliação técnica, descobri, com desânimo, que a placa mãe havia queimado. Conserto: R$ 2.400. A multa da CET era só aquela torção final no punhal que já atravessava meu coração (e meu bolso) até o talo. Só pra eu gemer um pouquinho de dor.

Por sorte – em meio a uma maré de azar – minha mãe estava em São Paulo naquele final de semana. Não por acaso: o rapto das mudas de Pau-Brasil aconteceu na véspera da saída do bloco, quando eu saía de casa pra depositar as mudas no Teatro e me juntar ao resto dos integrantes para nosso último ensaio aberto. E ela estava aqui pra sair conosco em cortejo pelas ruas do Bixiga. Então eu usaria o carro dela pra fazer o corre resgate-das-mudas-no-pátio-da-CET/Teatro Oficina. E dado o dia e o horário, era sabido e notório que momentos de imobilidade expressiva me aguardavam nas marginais. Desliguei com a CET e, com minha amiga, fui pro pátio.

Duas marginais depois, perto da Freguesia do Ó, chegamos a um local praticamente deserto onde havia um carro incendiado. Vou me informar. “Seu carro foi levado pela PM ou pela CET?”. “CET”. “Então não é aqui, é lá no Jaguaré”. Hum. Ok. Estava fácil demais. Vamos lá de novo. Era muito mais perto da minha casa. Mas até que o fluxo da marginal colaborou e não tardamos a chegar no pátio correto. Entramos. Fui me informar. “Você não é a proprietária?”. “Não, mas já sei, vou fazer a procuração pra retirar o carro”, respondi com impaciência, “só que agora preciso resgatar as árvores de dentro do carro senão elas vão morrer. É imperativo que eu saia daqui com elas. Imagina, nessa chuva, como elas devem ter ficado abafadas lá dentro”. “Ah, a senhora é a dona do carro cheio de plantas! Peraí… Psit”, o funcionário chama o outro. “Leva ela lá no carro das plantas”.

Acompanhei-o até lá. “Foi na Vila Madalena, né?”, me perguntou. “Foi, do lado da minha casa”. “É… só nesse pátio aqui chegaram hoje mais de 20 carros da Vila”. “É, tem alguma coisa errada com a CET se esse é o caso, você não acha?”. Ele não me respondeu. Talvez não pudesse dizer que concordava. Fiquei olhando o pátio lotado. Centenas de carros. Perguntei se era sempre lotado assim. “Sempre. E a maioria aqui é abandonado, ninguém aparece pra buscar”. “E aí?”. “Aí vai a leilão público”. Carrões. BMW, Mercedes. Impressionante. “Por que são abandonados?”, perguntei com ingenuidade. “Muitas vezes porque estão cheios de dívidas, multas. Não vale a pena.” Chegamos a meu Volkswagen e fizemos a transferência de mudas de um carro pra outro sob o olhar vigilante e comentários anti-carnavalescos do funcionário. Ignoramos ele. Agradecemos e saímos às pressas para o Teatro.

Uma vez lá, com menos atraso do que se supunha, descarregamos as mudas sob protestos do porteiro do estacionamento ao lado e ainda chegamos a tempo do ensaio aberto do bloco. Na semana seguinte tudo se resolveria, e as mudas de Pau-Brasil sobreviveriam. Mas ali, naquela sexta à noite, só duas horas tocando tamborim pra espantar toda essa urucubaca. Foi o que fiz e funcionou.

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Mercado de Flores. Foto: Divulgação Ceagesp.

Uzyna Oficina

 

 

Photos by Maria Bitarello
Novembro 2015 @ Teatro Oficina Uzyna Uzona
Canon AE-1, Ilford Delta 3200
Ensaios de “Mistérios Gozósos”, a partir do
“Santeiro do Mangue”, de Oswald de Andrade.

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Só a tragédia salva

Toda vez que levo alguém ao Teatro Oficina pela primeira vez, decido falar um pouco sobre a diferença entre o drama e a tragédia. Teatro – no Brasil, no Ocidente, hoje e já há muitos e muitos séculos – é, quase sempre, drama. Assumo que, de partida, é isso que minha companhia daquela noite espera do espetáculo: palco, cortina, palmas e uma historinha. O drama deixou-nos – o público – mal-acostumados com essa estrutura de historinhas e avessos ao simbolismo. No cinema é a mesma coisa. Quando esses elementos narrativos lineares não estão presentes, menos pessoas têm energia pra acompanhar. Ali, na porta do Teatro Oficina, então, no coração de São Paulo, proponho uma possível interpretação ao iniciante: “Pense que estamos entrando em um filme do David Lynch”. É um alerta, uma proposta, um convite.

Embora não seja bem isso também. O Oficina mantém viva a tradição da tragédia grega, no Bairro do Bixiga, graças à dedicação incansável de pessoas apaixonadas pelo que fazem. Ali, somos convidados ao Olimpo, a comungar com os deuses. Oficina é tragédia, é rito. E a por vezes temida participação do público nas peças do grupo não se dá apenas pelo risco (ou pela sorte) de algum(a) ator/atriz te levar pro meio da cena. Nós, o público, não somos plateia. Somos o coro. Somos multidão. Nesse ponto residia uma das birras do Nietzsche com o drama, e ele a esmiuçou em seu O nascimento da tragédia (1872). Essa separação – atores vs. público – nos tirou de cena. Nos transformou em plateia. Algo bem parecido acontece diante da TV: somos espectadores, telespectadores. Essa mudança vetorial aplicada pelos romanos matou a catarse que a tragédia grega proporcionava. A experiência coletiva e espiritual que acontece num espetáculo. A vida e os afetos que são, ambos, premissas e objetivos da arte. Na tragédia, as metáforas e alegorias são reais, muito reais. Não há atuação; há encenação. E como num filme do Lynch, não somos passivos. O texto exige nossa entrega.

O Oficina volta aos clássicos e recheia-os de referências contemporâneas. Platão, Sócrates, Eurípedes, Sófocles. Esses não envelhecem. As pulsões humanas permanecem irrespondidas, daí a importância de manter a pergunta no ar. E Zé Celso, diretor e criador do Oficina, não nos deixa esquecê-las. Quem ali vai, regularmente, como eu, tenta não se deixar devorar pela loucura cotidiana e se propõe a visitar deuses e demônios interiores. Parece assustador, mas liberta mais do que apavora. Pela catarse, expurgamos e purificamos os sentimentos. Re-significando-os. Devorando-os. Como? Damos as mãos aos ditirambos de Dionísio, adentramos a orgia. Ali, temos licença poética para existir em essência carnal. Mais corpo do que mente. Dionísio é o deus-espelho que nos revela o outro lado do véu; nos leva à aceitação. “Só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente”, é como fraseia Nietzsche naquele mesmo livro de 1872. E eu concordo.

Ali no teatro, a experiência se renova a cada vez. Não sei explicar. Todas as vezes, de novo e de novo, recebo um sopro de sanidade ali dentro. As coisas fazem sentido; passam a fazer mais sentido. Há quem diga que lá só tem maluco, e embora acusações de loucura, pra mim, sejam medalhas no peito de quem as recebe, o que de mais lúcido experimento na minha semana, no meu mês, é minha ida regular ao Teatro Oficina. Não tem nada de insano e aleatório. Na real, é um privilégio morar na cidade-sede do Oficina; ser contemporânea do Zé, para vê-lo em cena; entrar no mundo que eles criam pra nós, montagem após montagem, um passaporte rumo a uma viagem que eu não costumo fazer sozinha. Preciso dos meus parceiros da multidão, do vinho, do ebó, do coro, da catarse.

A duração das montagens às vezes assusta e afasta. Você tem que chegar lá no fim da tarde pra ver a peça e só vai sair perto da meia-noite. As durações variam. Duas, três, quatro, seis horas. Existem as peças mais curtas também, mas ando desconfiada de que essas não permitem a imersão completa e irresistível que as mais duradouras nos proporcionam, sem esforço. É como ler um romance vs. ler um conto. Têm textos, obras, cujo poder reside em nos acompanhar através do tempo. Ao contrário de um texto curto, o romance nos faz companhia durante uma jornada. Dias, semanas, meses. É uma forma de arte que nos permite mudar entre o início e o fim de sua fruição. De forma semelhante, as peças de longa duração do Oficina precisam de tudo o que ocorre ali, e nós, o público, precisamos daquele tempo para imergir e desligar-nos de verdade da vida aqui de fora. É somente após passadas algumas horas que entramos in ilo tempore, na atemporalidade dos mitos.

Só assim a catarse ocorre. Não é longo demais, é o tempo certo. E têm coisas que não devemos apressar. Não é um processo apenas narrativo, ou intelectual: é total. Como ir a um terreiro de umbanda. Como sexo. O coro é o que cria esse invólucro, essa bolha, e nos mantém ali, caóticos e coesos, naquele universo. A meu companheiro daquela noite, seja ele quem for, costumo dizer também que o mais difícil das peças do Oficina é chegar ao fim delas. Lidar com o sentimento de orfandade após os aplausos. Os atores sabem como é isso, sabem lidar com isso. Com um público que se recusa a partir, que se apega à suspensão teatral, que não quer voltar a ser abóbora. Há quem precise de toda a madrugada para voltar ao “normal”; outros, bem mais que isso. E alguns poucos, como eu, não retornam mais.

Tal como uma tragédia, o Oficina apareceu na minha vida de forma incontornável; me levou consigo e não deixa espaço pra remorso ou encanação. Sem drama. Fui atravessada por tantas vidas, vivi tantas mortes ali; não há como me separar disso. É o aprendizado que tirei dessa tragédia: o de que agora já não sei mais como era o mundo, como era eu, antes de frequentar o Oficina. Antes de viver e morrer ali. Não sei a quem, nem sei como, mas sinto que devo agradecer a alguém por isso. A gratidão que sinto me sufoca. O Zé não aceitaria esse agradecimento. No Oficina, não há estrelas nem protagonistas. Então, de tempos em tempos, encharcada de gratidão, transbordo desse sentimento. O que o Oficina faz é criar e partilhar amor, muito amor. E eu repasso-o como posso. Convido amigos a viverem comigo esses ritos – um virgem ou não de Oficina. Espalho a boa nova. E meu sentimento de gratidão vira criação. Como nesse texto. Já sem saber o que fazer com ele, pus-me a escrever.

O Oficina é um romance, dos bons, dos longos. É uma tragédia em um filme que poderia ser dirigido por David Lynch. É tudo isso junto e misturado com o que você leva pra lá consigo. Cada público compõe a receita a sua maneira. E há dias, juro, em que o tempo ali dentro para. Nesses dias, habitamos o tempo mítico. Dá pra sentir a presença do divino. E diante dele, somos todos cabras.

Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
(João Guimarães Rosa)

339451_309928375770683_1284446131_oFoto: divulgação Teatro Oficina