Do not bury the dead

The first tragic loss in my life was Saul’s. We were both 12, and he was accidently shot by another child, a neighbor who found his mother’s gun and fired from a window. Saul’s family is very close to mine and his death has, ever since, become a part of our lives. Of who I am. I cannot separate myself from that girl who was told before school, one September morning, that her friend was killed. We are the same.

The second tragic loss I experienced was my cousin’s, Daniela. I was a sophomore in college and she was 15 when her younger brother found her in her bedroom, breathless from an accidental chloroform overdose. There are those that say her death was avoidable, but it makes no difference whose fault it was. She’s not here. And that is the all-encompassing truth.

The third tragic loss was Jorge’s, a good friend from college who died a couple of years after we graduated. He was in the advanced stages of Aids and did not know he was sick until two weeks prior to his death. He was harshly judged by many, but the truth is that he was a beautiful man. And beauty deserves no punishment.

The fourth one was tough. Roberta and I were both 27 when she committed suicide and took with her memories that only the two of us shared. She was my oldest friend. With her went a part of me that no one else knows, and I felt amputated. Abandoned. For a while, I hated her for having brought that amount of pain and incomprehension into my life. I will never fully understand her decision, but I know it prevented me from ignoring death, and also suicide. Her swift and violent departure became a layer of my skin. And not only can I not imagine myself without this experience, I don’t want to. It taught me that I don’t need to understand in order to accept it. This loss, apart from all others, has been the single most brutal, real and liberating. It awakened me to mortality and, consequently, to life. And for this, I feel gratitude.

The fifth tragic loss in my life was Bruno’s, a high school friend. He succumbed to the injuries brought on by having nearly his entire body carbonized after a car crash. He was generous and kind, and reminded me that we cannot take with us anything from this life, this world. Not even our bodies, our vehicles of pleasure and pain, without which there is no life.

Lastly, there were two tragic losses that loved ones, close to me, experienced. Eugénie was younger than me and died from a brain tumor at 25. She craved life. And Alexandre was in his mid thirties and died in a plane crash. He was a gentle, loving soul. From them I learned that there will always be something left unsaid, undone, incomplete. And closure will come despite of it.

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We go through life creating bonds. With people. Places. Stories. And then we have to let them go, one by one. Unlike what we are told as children, death does not greet us only at the end. It doesn’t happen in the distant future, when we die. Death is all around us, all the time. And our own is but the last. Everyone I know will die. Everyone who has lived has died. Everyone still alive will also die. And so will I.

Knowing this fills me with release, surrender. Or faith is perhaps a better word. Not knowing when or how it will occur still allows me to accept and trust its inescapable and necessary quality. And this, alone, makes every living moment unique and a once-only experience. Good or bad, everything is a part of the living realm and, therefore, precious and worthwhile. Feeling sad and grieving takes its toll after some time, and we tire ourselves out of sadness. The same comes from bliss or contentment. It too will pass. And that’s ok.

In Portuguese, we have a word, saudades, which is difficult to translate into other languages. In English, we say we miss someone; in French, someone is missing from us. Saudades, however, conveys more than longing or nostalgia. It can be and often is a pleasant sensation. Because if you experience saudades from a loved one, it is the very affirmation that there is something to be missed; that the love in which you two are embalmed is the same feeling that you wish kept you company at this moment.

I like this word, and there is something to be learned from the Portuguese poets in times of grief. When we loose someone, his or her absence is overpowering. And yet, in the lusophone world, we are taught to not discard our dead. Saudades makes their absence present. Pain can be transformed; grief will no longer be frightening; the dead may live on in our flesh and groins. And we need never be alone.

We must admit there will be music despite everything*.

*From the poem “A brief for the defense”, by Jack Gilbert.

Saudades do Aeroporto da Serrinha

Adoro turbulências durante o voo. O trepidar lembra um ônibus da Cometa e aumenta minhas chances de adormecer a bordo. Já que voar é entediante e incômodo, aceito todas as formas de torná-lo mais interessante. Ali onde uns sentem medo, eu sinto presença de vida. Que venham as turbulências. E em meu histórico aeronáutico, o voo mais interessante que já tomei foi o Paris-Cotonou, no Benim, com escala em Trípoli, na Líbia, pela Afriqiyah Airways. Não pelas turbulências. Os comissários de bordo fumavam ao lado do banheiro, durante o voo, por exemplo. Os passageiros também fumavam, ao desembarque, antes mesmo de deixarmos aquele tubo que conecta a aeronave ao prédio. No Aeroporto Internacional de Cotonou, o desembarque acontece na pista, e as malas são levadas, lado a lado conosco, até o saguão interno, onde são manualmente colocadas sobre a esteira. Um lugar onde ainda sobra espaço para a acomodação e acordo pessoal.

Para entrar no país, o governo do Benim pede um visto e a cartela de vacinação carimbada no campo “febre amarela”, e eu tinha ambos. Mas, que mancada, esqueci a cartela em Paris e avisei ao oficial de saúde que veio pedi-la, vestido com um jaleco branco, semiaberto, sem camiseta por baixo, e com uma máscara de cirurgião em volta do pescoço. Ele me levou até uma salinha e fechou a porta. “Quando vencia a vacina?”, perguntou, sentando-se à mesa vazia. “Ano que vem”, me expliquei, “tomei faz quase dez anos, mas ainda está valendo.” Ele dispensou meu comentário e seguiu com outra pergunta naquele simpático francês com sotaque africano. “Era só contra febre amarela?”. “Era”, respondi. Ele acenou com a cabeça para a cadeira ao lado, onde me sentei, e tirou uma cartela novinha da gaveta. Preencheu-a com os dados do meu passaporte, carimbou-a com o selo oficial do Ministério da Saúde local e me pediu 10 euros. Eu paguei.

Este prólogo foi só pra contextualizar minha memória desse voo e desse aeroporto, porque pensei neles na semana passada quando cheguei em Juiz de Fora, Minas Gerais, de avião. Foi a primeira vez na vida que aterrissei no Aeroporto da Serrinha, ou Francisco Álvares de Assis, até recentemente o único da minha cidade natal. Foi também meu primeiro voo num avião com asas acima das janelas, desses que vemos em filmes com Humphrey Bogart e Audrey Hepburn. Muito estáveis, aliás.  O Aeroporto da Serrinha é uma simpatia. É tão pequeno que faz pouco separaram a área de embarque da de desembarque. Os funcionários do check-in são os mesmo que buscam nossas malas no avião e alguns amigos meus viraram pilotos treinados ali, no aeroclube.

Quando eu era criança, frequentava o restaurante anexo com minha família por causa do parquinho. Isso antes de eu andar num avião na vida. Uma grade móvel, dessas que vemos na frente de palcos de shows em exposições agropecuárias, separava o parquinho da pista de pouso.  E os voos panorâmicos de teco-teco até hoje são uma opção legal para os amigos que visitam pela primeira vez a região, pois de cima vemos o mar de morros que abraça a cidade e se estende ao horizonte. É bonito.

O voo do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, ao Aeroporto da Serrinha foi lindo. Gostei muito. Foi só na manhã seguinte que fiquei sabendo do acidente que matou oito pessoas ali ao lado. Conheço muitas pessoas que vivem na região. Meu próprio avô deixou terrenos de herança aos quatro filhos, dentre eles minha mãe, logo depois do morro, da colina, onde fica a curta pista de pouso do Serrinha. O local é famoso pela serração baixa e pela má visibilidade, e o pequeno avião nem atingiu a pista, caindo dentro da pousada da família de um amigo meu, local que eu frequentei, semanalmente, por algum tempo. Nossa banda, duplodeck, ensaiava ali, num quartinho anexo à pousada, todos os sábados à tarde. Os aviões que passavam rasantes para pousar eram frequentes, e a vibração que provocavam era, por vezes, grande. A quadra de futebol era ponto de encontro dos “caras” da faculdade terças à noite e o caramanchão, a 200m da curta pista e arrancado do chão pelo bimotor acidentado, foi altar de casamentos de amigos.

O acidente me deixou pensando nessas coincidências e nas minhas memórias associadas ao Aeroporto da Serrinha quando decolei, dois dias depois, de volta para São Paulo. É um daqueles lugares onde o “sistemão” do mundo ainda não chegou direito. Existe um elemento orgânico, onde o caso-a-caso ainda impera e que, pensado dentro de nosso cotidiano corporativizado, faz dele um oásis de bom senso, como o voo da Afriqiyah Airways para o Benim. Onde ainda vemos os indivíduos e as exceções cabem na regra.

Lembrei dos amigos pilotos, voos panorâmicos, ensaios ao som de decolagem, parquinho com minha irmã e, sobretudo, na fotografia que tirei ali no meio da pista, aos 7 anos quase completos, ao lado do então candidato à presidência da república, Luiz Inácio Lula da Silva, em novembro de 1989. Essa fotografia ainda decora a casa da minha família e a dos pais de uma amiga de infância: nela, nós duas, penduradas no pescoço do ex-presidente. Ela está ao lado de outra, também tirada ali, agora em setembro de 1998, quando nós duas compactuamos com os seguranças do aeroporto e líderes do PT, que tentavam evitar que a multidão de eleitores invadissem o pequeno saguão. Atravessamos a brecha na porta e na vida e nos precipitamos em meio aos flashs dos fotojornalistas, onde empunhamos a foto de 1989, a marca própria da passagem do tempo, e ladeamos o candidato Lula, à espera dos cliques. Demorou mas conseguimos cópias da foto que saiu, enorme, no Estado de Minas.

Quatorze anos depois deste dia, Lula já teve dois mandatos e não é mais presidente; os integrantes da banda que tocava todos os sábados se espalharam por aí e agora se reúnem de vez em quando para brincar num estúdio mais equipado e no mesmo local; o parquinho, acho que não existe mais, embora as grades tenham melhorado; e a foto emoldurada daquela amizade de infância e adolescência fala de uma saudade que não passa.

Têm dias que são assim. De sossego na turbulência.

(Acervo pessoal)