Pelo direito a não ter carreira alguma


“Carreiras são uma invenção do século 20, e eu não quero uma”. Quando li essa frase, conclui no ato: nem eu! Um dos primeiros pânicos que tive, ainda bem nova, ao me projetar adulta era justamente esse: como é que eu vou conseguir trabalhar a vida toda fazendo a mesma coisa? Tinha calafrios noturnos com a ideia. Isso muito antes de ler a frase acima no livro de Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem. Muito antes de saber que não era preciso fazer todo dia a mesma coisa pra ser um adulto. Se soubesse então que carreiras são uma invenção recente, teria me concentrado em sofrer apenas com os outros dois desse trio de terrores do reino assombrado da “maturidade”: 1) acordar cedo todo dia; 2) e ter que virar esposa e mãe. Me sentia completamente inapta pra todos eles.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

Você tem medo de quê?

Outro dia um amigo me disse o seguinte: “Meu instinto é classe média”. Ou seja, quando o bicho pega, os sistemas de defesa do seu corpo e mente o levam pro lugar que ele conhece como seguro – e ele não parecia satisfeito com essa constatação. Ele queria dizer que, por exemplo, tem medo das ruas da cidade à noite, que tem o instinto de atravessar pra calçada mais iluminada, que logo quer pegar um táxi e, também, outro exemplo, que quando a vida fica muito incerta suas defesas logo acionam o alerta que pisca em letreiros luminosos dizendo “arrume um emprego!”, tenha carteira de trabalho assinada, compre a casa própria, tenha 13o, declare o Imposto de Renda, garanta sua aposentadoria e plano de saúde privado. E, no entanto, ao mesmo tempo, ele sabe que nada disso importa tanto assim – e não digo isso por causa da reforma trabalhista do apocalipse. É porque o buraco é mais embaixo mesmo.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

Trabalho não é emprego

170221-lazer

Outro dia fui ouvir uma fala do escritor, crítico e professor da Unicamp, Eduardo Sterzi, na livraria/biblioteca/espaço cultural Tapera Taperá, na Galeria Metrópole, no centro de São Paulo, sobre antropofagia e o modus vivendi ameríndio a partir de fotografias do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. E me saltou aos ouvidos quando ele disse que na cultura indígena o descanso e a atividade se misturam. Um índio molda seu arco ou cuida do fogo deitado na rede. Ele descansa o corpo, embora esteja propriamente ocupado com uma tarefa. Me identifiquei na hora. Tenho como posição favorita pra escrever aquela em que deito na cama, coloco uma pilha travesseiros sob a cabeça e descanso o computador em cima da barriga. Delícia. E sou muito produtiva nessa posição aparentemente anti-anatômica pra escrita. A escrita que é uma atividade, um trabalho.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.